As novas tramas do denim: verde e marrom

Denim com trama verde de poliéster reciclado, da Cone Denim.

Denim com trama verde de poliéster reciclado, da Cone Denim. Fonte: WGSN tumblr.

 

Denim com trama de algodão orgânico naturalmente colorido, da Tavex.

Denim com trama de algodão orgânico naturalmente colorido, da Tavex.

Verde ou marrom?

Verde é a trama feita de poliéster reciclado derivado de garrafas pet. Fabricante: Cone Denim.

Marrom é trama do algodão orgânico naturalmente colorido. Fabricante: Tavex.

A trama mais sustentável é a marrom – e se você não sabe qual a razão é porque não acompanha este blog!

Tá ok, mais educadamente – segue um trecho da dissertação de mestrado (Eng. Produção UFMG) mais insone e insopitável de todos os tempos (acaso, a minha), com uns poucos argumentos contra o verde:

A produção da fibra de poliéster apresenta um alto impacto ambiental em relação à emissão de resíduos no meio-ambiente, inclusive resíduos danosos à saúde humana.

A produção de poliéster gera a emissão, no ar e na água, de metais pesados, sais de cobalto e manganês, brometo de sódio, dióxido de titânio, óxido de antimônio e acetaldeído.

A fabricação de poliéster geralmente usa o antimônio como catalisador. Além de cancerígeno, o antimônio é tóxico para coração, pulmões, fígado e pele. A inalação prolongada de antimônio, um subproduto da produção de polímero, pode causar bronquite crônica e enfisema (LEE, 2009, p. 68).”

Em relação à redução do impacto ambiental, “os números atuais indicam que mais da metade de toda a fibra de poliéster da Europa é obtida de materiais reciclados (FLETCHER, GROSE, 2011, p. 71).” No Brasil, o uso de poliéster reciclado ainda é inferior que a demanda por fibra de poliéster virgem. Um dos maiores problemas com relação à reciclagem do poliéster é que, por ele ser “geralmente misturado com outros tecidos, torna-se difícil reprocessar peças feitas do material e transformá-las em outra coisa (LEE, 2009, p. 68).”

Eco Lanvin in Meryl Streep

Até o momento, o único vestido ecologicamente correto usado no Oscar, foi o Lanvin de Mery Streep. A notícia saiu na Vogue Britânica e no Ecouterre.

De acordo com com Livia Firth,

The gown is gold, full-length and made from eco-certified fabric sourced with help from the GCC.

O ator Kenneth Branagh (My Week With Marilyn) usou um terno com lã de Merino (um tipo de ovelha que produz umas das lãs mais sofisticadas e macias), de Emernegildo Zegna.

Dica da Silvinha: Tecido de algodão elimina manchas e odores sob o Sol

Um alento para o algodão ao relento...

Roupa autolimpante

Imagine um jeans, uma camiseta ou mesmo uma meia capaz de se desodorizar sozinha, bastando para isso ser colocada ao Sol.

Pois é justamente este o avanço que acaba de ser anunciado por dois cientistas chineses.

Mingce Long e Deyong Wu criaram um novo tecido de algodão capaz de se autolimpar, livrando-se de manchas e de bactérias, ao ser exposto à luz do Sol.

Dióxido de titânio

Os pesquisadores afirmam que seu tecido autolimpante usa um revestimento feito de um composto à base de dióxido de titânio, um material branco usado em inúmeros produtos, de tintas a protetores solares.

O dióxido de titânio quebra as partículas de sujeira e mata os micróbios através de uma reação fotoquímica – é por isso que a roupa precisa ser colocada no Sol.

Outros pesquisadores já haviam produzido roupas autolimpantes antes, mas elas precisavam ser colocadas sob luz ultravioleta, um processo similar à esterilização de produtos médicos, o que elimina toda a praticidade que se procura obter.

O dióxido de titânio nas fibras do tecido autolimpante quebra as partículas de sujeira e mata os micróbios através de uma reação fotoquímica. [Imagem: ACS

Máquina de lavar e secar

Os cientistas chineses afirmam que resolveram a deficiência das roupas autolimpantes usando um composto de dióxido de titânio e nitrogênio.

Isto não apenas eliminou a necessidade da luz ultravioleta, como também tornou o tecido capaz de eliminar manchas, como um corante laranja que, durante os experimentos, saiu totalmente apenas com a colocação da roupa sob o Sol.

Os pesquisadores afirmam que o revestimento continuou intacto mesmo depois que a roupa foi lavada e secada à máquina – o que foi feito justamente para testar a durabilidade do material.

Matéria disponibilizada na íntegra. Fonte aqui.

Denim ecológico

Respondendo ao e-mail de um leitor do blog, que pode ser uma dúvida de outros, conheço dois tipos de denim (tecido que compõe o jeans – jeans é o resultado do tecido denim mais o corante índigo) voltado para a sustentabilidade ambiental:

1) Denim 100% reciclado, da Denovo

http://www.denovo.ind.br/
dá uma olhada no site, na guia “produtos”, depois em “denim color”

Amostras de jeans da Denovo

Aliás, eu fiquei muito feliz há uns tempos atrás, quando vi link do meu blog na página inicial da Denovo. Muito obrigada por isso! <3

Obrigada, são essas coisas que estimulam a gente a continuar.

 
2) Denim de algodão orgânico, dentre outros tipos, da Tavex

http://www.tavex.com/13947/inverno_12.html
A Tavex (que comprou a Santista Têxtil) é o principal fornecedor, de grifes como Carlos Miele e Levi’s. Ela chegou a produzir denim com PET reciclado de garrafas; tem também uma outra qualidade de denim, com acabamento com cupuaçu (é a linha Amazontex), enfim, só vendo com o representante mesmo… Em 2009, eu cheguei a trabalhar com o denim de algodão orgânico e foi muito bom o contato com o fornecedor (prazo, preço). Outro jeans que estão produzindo é o que tem aspecto visual de couro, que a Ellus está usando nas coleções e vai usar agora no desfile de janeiro de 2012! ;)

Jeans ecológico da Tavex

Preto no branco: algodão transgênico X algodão convencional X algodão orgânico

Algodão transgênico é verdadeiramente pior que algodão normal; algodão orgânico transgênico não foi avaliado pela Universidade da Geórgia (EUA).

Recentemente, saiu uma reportagem no Sign of the Times, falando sobre a questão do algodão transgênico, que este não tem vantagens sobre o não-transgênico. A pesquisa não considerou o algodão orgânico, infelizmente. (Valeu a dica, Genas! ;) )

Muitas pessoas compreendem o algodão como uma matéria-prima ecologicamente correta, biodegradável, sustentável. Não é!!!

Logo, não se deixe levar por um ideário de sustentabilidade ambiental disseminado por slogans de algumas empresas de moda, como a “Reserva Natural – 100% fibras naturais”, que tanto usa algodão convencional/normal em suas roupas – e só contribui é para uma série de malefícios aos trabalhadores e ao meio ambiente.

"Reserva Natural 100% fibras naturais", verão 2012. Essa é mais uma marca que se apropria de um ideário de sustentabilidade ambiental ("reserva", "natural", a exclusividade de fibras da natureza) de modo equivocado. Os consumidores - por falta de conhecimento deles mesmos ou por direcionamento ideológico da prórpia marca - podem ser levados a considerar que se trata de uma ecobrand - o que não é. A empresa poderia se posicionar nesse segmento apenas substituindo o algodão convencional por algodão orgânico. E em todo caso, é de responsabilidade da empresa educar seus consumidores. As fibras são naturais, mas nem todas são sustentáveis - e inclusive uma (o algodão) faz um mal danado à saúde do produtor e à saúde do solo. Eu, pessoalmente, gosto do Estilo dos produtos da marca. Só tem que tirar esse algodão convencional/normal e substitui-lo pelo orgânico - daí dá pra marca ser coerente com a ética e estética da sustentabilidade.

Abaixo algumas infos que retirei de uma das aulas que dei, de Moda e Sustentabilidade (Design de Moda UFMG), falando sobre o algodão. O algodão não-orgânico, isto é, esse algodão normal que tanto usamos, é “from hell”, vide que o mesmo:

  • ocupa uma área de 3% do globo
  • consome 25% (uns falam em 23%) de todas as inseticidas consumidas no mundo e cerca de 10% de todas as pesticidas
  • em torno de 160 gramas de agrotóxicos são usados para confeccionar uma camiseta que possui 250 gramas de algodão
  • trabalham 40 milhões de pessoas nessas plantações, em péssimas condições, de extrema pobreza e insalubridade
  • todo ano morrem em torno de 20 mil de pessoas por causa dessas plantações de algodão
  • a maioria das plantações de algodão normal concentram-se em 22 países em desenvolvimento, como Brasil e Índia.

    Trabalhadores norte-americanos em plantação de algodão convencional, em 1888.

Concluindo, considerando as informações da pesquisa, nós vemos que:

  • não se pode dizer que o algodão orgânico transgênico seja melhor que o não transgênico – pois isso ainda não foi avaliado;
  • o algodão convencional transgênico não oferece vantagens em relação ao convencional não transgênico. Logo, não se justifica transgenia na cultura de algodão;
  • o algodão orgânico é melhor que qualquer algodão (não-orgânico/convencional seja transgêncio ou não), porque não utiliza agrotóxicos, em geral é produzido por cooperativas (principalmente no Nordeste do brasil), não causa morte de trabalhadores por manuseio de venenos. 

    "Parece, mas não é." Algodão convencional, fibra natural sim, mas não sustentável ambientalmente. Ele já devia vir na cor preta, em simbólico luto pelos milhares de trabalhadores que falecem todos os anos cuidando de plantar e "beneficiar" a fibra, cada vez mais rápido, cada vez mais venenos (pesticidas e herbicidas).

No mais, considerando que as duas principais fibras têxteis comercializadas em nosso país são o algodão convencional e o poliéster – e que o Brasil é dos maiores produtores de têxteis de de artigos de moda do mundo – a coisa tá preta.

Resumindo a ópera:

algodão convencional = morte

branco = preto

Vestido de noiva em 100% algodão, 100% fibra natural. Alguns morrem para outros casarem e terem filhos. A natureza da indústria parece ter mesmo a mão invisível de Adam Smith (economista liberal e filósofo escocês iluminista), auto-regulando a economia e a população. A noiva em vestido de algodão é, para mim, o símbolo-mor da hipocrisia e ignorância na Moda.

 Outro engodo é o tal do tecido composto por PET reciclado e algodão. Mas esse fica pra outro post.

Tudo sobre couros, na revista Tag (e aqui no blog também!)

Recentemente, servi de fonte para uma reportagem sobre couros da revista Tag, de Bauru-SP. (Neste ano, outras mídias, como Folha de São Paulo, Rede Record, Jornal da Pampulha, também entraram em contato para trocar ideias sobre Moda e Sustentabilidade).

O tema da edução #5 da revista Tag é Reutilização, com muitas infos de moda, design e sustentabilidade. Está muito legal mesmo a revista! Vá direto para as páginas 32-33 e leia mais sobre couros!

Para quem quiser saber mais sobre couros, segue abaixo sabatina, perguntas inteligentes que são raros os jornalistas capazes de fazer.

————————->>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Entrevista Revista Tag UNESP – Bauru/SP

Lívia Neves

Luciana Duarte

  1. O que é o couro em si? (Existe uma lei que não permite que materiais que não tenham origem animal sejam chamados de couro)

No contexto da moda, couro é toda pele animal, do couro bovino ao couro do pé de galinha. De acordo com interpretação do artigo 8º da lei 11.211/05, couro é a matéria-prima constituída de pele animal.

A saber, o artigo diz:

“É proibido o emprego, mesmo em língua estrangeira, da palavra “couro” e seus derivados para identificar as matérias-primas e artefatos não constituídos de produtos de pele animal.”

  1. Como o couro surgiu no vestuário?

Infere-se que o couro tenha surgido no período pré-histórico. A antropologia da arte e história da arte atestam que os homens considerados pré-históricos valiam-se das peles, ossos e dentes dos animais (ex. mamutes) para adquirir os poderes dos animais após caçá-los. Nesse sentido, o uso da pele animal (couro) surge, como veste com finalidade mística. Outras finalidades de surgimento do couro no vestuário é como abrigo para o corpo das intempéries climáticas e como proteção para os pés (solados).

Não sei precisar qual a data de surgimento de couro, mas a lã, que é um produto da pele animal, é considerada tendo surgido com os povos da Mesopotâmia em cerca de 7.000 a.C.

Vale lembrar que o conceito e dinâmica de moda surgem em 1850 com Charles F. Worth; logo o couro, enquanto produto para o vestuário (incluindo calçados e acessórios) de moda, é considerado tendo surgido a partir de então.

  1. Por que ele é tão valorizado, atualmente?

Creio que o couro em si nunca deixou de ser valorizado, devido a suas propriedades de resistência mecânica que lhe conferem durabilidade com o uso e o fazem sinônimo de produto de “qualidade”.

Atualmente, os couros considerados exóticos (vide couro de rã, avestruz, píton, etc.) – ou exotic leather – estão na moda, com diversos acabamentos e cores. Diversas terminologias impróprias, como couro ecológico e couro vegetal, também situam o couro como assunto da moda, atribuindo a essa matéria-prima o valor daquilo que está em evidência na sociedade.

A saber, no meu blog e pelos mecanismos de busca do WordPress e do Google para chegar ao blog, os termos couro ecológico e couro vegetal são os mais buscados diariamente, há meses.

  1. Qual a diferença entre a composição do couro animal e do couro ecológico/sintético?

Para situar nossa conversa dentro da lei, vamos considerar os termos:

  • Couro animal equivale a couro. Somente a palavra couro basta designar o material constituído pele animal, que pode ser do couro de coelho (branco, com pelos felpudos e macios) ao couro de tilápia (com textura em alto relevo geométrico depois de retiradas as escamas). O biocouro (ou bio-couro ou bioleather) pode ser considerado como um subconjunto do grupo couro, determinando couros que são processados com a ausência ou o mínimo de materiais tóxicos nos curtumes. É um termo bastante em voga.
  • Couro ecológico equivale a laminado vegetal ou laminado recuperado de couro. Laminado vegetal é sinônimo de encauchados, uma tecnologia social dos índios andinos apropriada há cerca de oito anos pela indústria brasileira (inicia-se com a empresária Beatriz Saldanha e sua empresa Amazon Life), constituindo-se de uma camada de tecido natural (ex. algodão) que recebe sobreposta uma camada de látex proveniente das seringueiras. Já o laminado recuperado de couro é um produto constituído de couro considerado resíduo de curtumes (de acordo com empresário da Couro Ecológico, o Brasil gera 30.000 toneladas de resíduo de couro por mês) associado a um material aglutinante, unindo tais fragmentos moídos do resíduo de couro.

A saber, na indústria da moda, o termo couro ecológico tem sido utilizado para o couro propriamente dito, principalmente referindo-se às peles de peixes, sendo as mais comuns as de tilápia, salmão, pescada amarela e dourado; quanto para o laminado vegetal, o laminado recuperado de couro e o “couro sintético”, isto é, o laminado sintético, constituído de polímero (ou, designação vulgar, plástico) proveniente do petróleo (recurso natural não-renovável).

  1. Qual a eficiência do couro na questão de durabilidade e resistência?

Não disponho de dados quantitativos sobre a resistência mecânica do couro. Acredito que tais informações precisas possam ser encontradas nas áreas de Engenharia Têxtil e Engenharia de Materiais. Se não, são uma oportunidade de pesquisa.

Considerando dados qualitativos e empíricos, em termos de aparência visual, o couro, mesmo desgastado pelo uso, é tido – atualmente, na moda vestuário e no mobiliário – como mais bonito,preferível que o laminado sintético. Esse desgaste é chamado “efeito used”, de usado; em tempos de incerteza e mudanças no mundo, é um material eficiente em termos de semântica, dialogando com a estética vintage, proporcionando conforto sensorial (ao contrário do sintético, possui poros e permite que “o pé respire”, transpire), conferindo identidade de legítimo e proporcionando, por essas razões, segurança ao usuário, por ser também um material bastante conhecido, genuíno e há muito tempo em uso (antigo, convencional, resistente, autêntico, duradouro).

Talvez este seja um caminho que responda a suposição da pergunta n. 3, de que o couro esteja na moda. Na verdade, a estética vintage (objetos antigos e resistentes proporcionam segurança e conforto em tempos difíceis e incertos) é que está na moda (isso não significa tendência, mas resposta da indústria da moda a uma demanda do consumidor), e o couro propriamente dito é um material que sempre esteve em uso, mas que se evidencia na moda por meio da necessidade de consumo, isto é, da motivação do comportamento das massas por produtos que transmitam os valores subjetivos já assinalados.

  1. Como devemos cuidar da peça para que ela dure por mais tempo?

Essa é uma questão que abrange diversas opiniões. Pessoalmente, por considerar o couro uma pele, eu conservo meus sapatos e acessórios de couro limpando-os com flanela levemente úmida, raramente uso álcool, costumo passar hidratante corporal (o mesmo que uso para minha pele), nunca uso graxa nem produtos para finalidade de conservação de couro que são comercializados em supermercados. Como designer, evito comprar sapatos cujas partes frontal (que cobrem os dedos) e posterior (cobrem o calcanhar) sejam de couro, porque as mesmas sofrem mais desgaste ao caminhar, logo, arranham com maior frequência o material – ou seja, procuro por boas soluções de design de calçados que valorizem o material para que o mesmo tenha maior ciclo de uso e de vida.

  1. Qual alternativa é melhor para o meio ambiente, sendo o sintético derivado do petróleo e o legítimo dependendo da vida de um animal?

Desconheço estudos que apontem qual a melhor alternativa. A saber, a ferramenta “Análise do Ciclo de Vida” pode indicar qual o caminho de menor impacto ambiental, sendo essa uma oportunidade de pesquisa.

Com base nas informações que tenho, infiro que a melhor alternativa não é nem o laminado sintético nem o couro, mas sim o laminado vegetal, que combina uma fibra têxtil natural e possível de ser orgânica com um material renovável e natural, que é o látex. O sintético, para justificar a extração de um recurso natural não renovável, como o petróleo, precisaria ter propriedades mecânicas e estéticas equivalentes as do couro. Por outro lado, sabemos que o couro bovino, amplamente usado na moda, provém do abate de animais que emitem gás metano, um dos maiores causadores do efeito estufa. Há alguns anos, morei com uma pesquisadora norte-americana cujo objeto de pesquisa era mapear as emissões de metano dos rebanhos bovinos no Brasil. Uma pesquisa indica que o Brasil possui o segundo maior rebanho do mundo (quase equivalente ao número da população brasileira), responsável por 29% das emissões de metano no país, contribuindo fortemente para o aquecimento do planeta e todo o desarranjo da natureza. Como vemos, uma coisa leva a outra, e daí podemos notar a relevância social de diminuir ou restringir o consumo de carne vermelha e de produtos de couro. Em outras palavras: consumir produtos de couro estimula o aumento do aquecimento global.

Logo, trata-se de uma questão controversa, impossível de ser respondida apenas com informações não comparativas com os mesmos parâmetros e em termos quantitativos para os distintos materiais.

  1. Qual alternativa é mais cara para se produzir?

Não disponho dos valores exatos de produção e comercialização do couro e dos laminados. Essa informação pode ser obtida com base em dados estatísticos formulados após pesquisa com os produtores e demais stakeholders.

Pessoalmente, infiro que o material proveniente do abate de animais é mais caro, porque envolve a criação (manutenção do pasto, abrigo, alimentação, vacinação) de diversos seres vivos e a posterior transformação de suas peles nos curtumes, ou seja, são duas etapas para obter o couro. Já o sintético, amplamente produzido na China, é comercializado com valores abaixo do couro.

  1. Sobre a questão da retirada da coleção de pele da AREZZO, como você se posiciona sobre o assunto? Não seria muita hipocrisia permitir que couro de vaca seja livremente explorado, mas o de raposa/ovelha seja restrito? As vidas estão sendo tiradas da mesma forma.

Os fabricantes, como no caso do Birman (empresário da Arezzo), valem-se do argumento que o couro provindo do abate de animais destinados à alimentação do homem é justificável como matéria-prima nas coleções de calçados e acessórios. Já o couro provindo do abate de animais exclusivo para uso na moda (ex. raposa, chinchila) deve ser recriminado. Na época, a empresa manifestou-se por meio de uma nota no site, demonstrando uma postura de ausência de responsabilidade pelos materiais que utiliza (cito: “Não entendemos como nossa responsabilidade o debate de uma causa tão ampla e controversa”).

Baseando-me em Flusser, um dos principais filósofos que tem sido estudado na área de design e comunicação, afirmo que: a incompetência da universalização autoritária das normas, a complexa rede industrial como responsável moral por um produto e a novidade da questão da ética como pertinente ao desenvolvimento de produtos, configuram um cenário de muitos questionamentos e poucas respostas. Estamos em um momento em que a ética na indústria está sendo discutida; apontar um julgamento de valor (caso da palavra hipocrisia) restringe a discussão; a empresa e os consumidores estão aprendendo juntos o que é e como deve ser a ética da sustentabilidade.

Eu, inclusive, que embora seja pesquisadora de moda ética, tenho três pares de sapato Arezzo com couro bovino. No entanto, a partir do momento em que tenho acesso a informação de que a criação de bovinos para abate (com finalidade de alimentação humana, couro para a moda, ossos como fertilizantes e demais subprodutos) fomenta o aumento do aquecimento global (fato que tira a vida de milhares de outros seres vivos), eu passo a ser responsável por esse conhecimento e uma mudança na forma de viver se faz necessária (para mim, não faz mais sentido comprar produtos de couro, ainda mais os da Arezzo). Grosso modo, resumindo dois milênios de filosofia, ética significa viver para o bem. Hipocrisia seria saber de tudo isso e continuar a viver comodamente, consumindo carne e couro, um consumo que não visa o bem da biosfera.

Referências

CIDREIRA, R. P. Os sentidos da moda: vestuário, comunicação e cultura. São Paulo: Annablume, 2005.

CHATAIGNIER, G. Fio a fio: tecidos, moda e linguagem. São Paulo: Estação das Letras Editora, 2006.

CHEHEBE, J. R. B. Análise do ciclo de vida de produtos – ferramenta gerencial da ISO 14000. Rio de Janeiro: Qualitymark Ed., 1998.

COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

FLUSSER, V. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

LEE, M. Eco chic: o guia de moda ética para a consumidora consciente. São Paulo: Larousse do Brasil, 2009.

MANZINI, E.; VEZZOLI, C. O desenvolvimento de produtos sustentáveis. São Paulo: EdUSP, 2005.

Entrevista Wolfgang Goerlich presidente do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil

Couro ecológico

Environmentalists thought they could save the rain forest and make money at the same time. They were wrong. In: Newsweek International. Feb. 16, 2004.

O gado esquenta o mundo

Uso de pele animal é tendência, defende presidente da Arezzo. In: Folha de São Paulo

O caos da Pelemania na Arezzo

Quântica, SusHouse, EcoHouse, serviços de moda sustentável, quântica nos produtos de moda sustentável

O Bicho Papão da Quântica é um camarada simpático. (Fonte: filme Monstros S.A.)

Estive sexta e sábado a fazer um curso de Quântica para iniciantes na UFMG. Naturalmente, era a única pessoa da área de moda no meio de uma meia dúzia de professores de Física e uns alunos da área. Mas vá lá, sem medo do Bicho Papão, deu para aprender bastante e vou fazer mais uns cursos legais nas áreas de Física e Química.

Livro: Quântica para iniciantes: investigações e projetos. Tem um tanto de experiências para aprender a teoria na prática. É moleza mesmo.

A ciência é para ser fácil e acessível e não um monstro da razão. Logo, vamos falar um pouquinho de Quântica e Moda.

A University of  Colorado (EUA), por meio do PhET Simulations, disponibiliza mais de 50 simulações interativas sobre tópicos de Ciências, como Física Quântica e Química Quântica. É só fazer donwload e curtir as teorias.

Neste momento da madrugada, em que preparo aula sobre Uniformes Sustentáveis e Joias Sustentáveis, estou baixando o simulador The Greenhouse Effect.

Gosto demais de Arquitetura e, desde que mudei para BH, sempre vou nos coquetéis na Casa do Baile (uma das obras do Niemeyer, das primeiras, que fica na Lagoa da Pampulha). São os melhores coquetéis, os melhores eventos de arquitetura, tudo muito intimista, no máximo 50 pessoas. Nem acreditei quando veio o indiano Charles Correa, um dos maiores arquitetos do mundo, e tinha só umas 15 pessoas lá contando comigo. MUITO BOM. Ah, mas a imagem é sobre as eco houses. A história é o seguinte: há n-tipos de eco houses, para todos os públicos e gostos. O interessante desses projetos é que quase nunca há uma estufa para plantas, um tipo básico de "eco house".

Agora, eco house mesmo é o que os caras estão fazendo: moldando as plantas com umas "órteses" para que elas configurem casas e objetos. Esse conceito chama-se Life Growing Architecture. Coisa de puristas da sustentabilidade. Eu sinceramente sonho em morar em uma casa dessas...

... e sentar numa cadeira dessas para ler meus livros. Bem, melhor comprar logo um terreno e ajeitar as plantas, porque vai levar uns 20 anos para "fabricar" os móveis e "construir" a casa. Slow design e slow architecture.

Só para fazer  mais um outro parêntesis sobre essa questão das  eco houses: muito do impacto ambiental da moda foi avaliado inicialmente pelo projeto SusHouse, cujo um dos tópicos da pesquisa desenvolvida na Holanda, Itália e Alemanha, Clothing Care, analisa o quanto as roupas consomem de energia e água em uma casa. Roupa é um dos produtos que mais impactam o meio ambiente… Eu já vinha lendo um material dessa metodologia gringa há uns três anos e no ano passado ainda calhou do meu orientador na Engenharia de Produção fazer um pós-doc em uma das universidades que disponibiliza essas pesquisas, a TU Delft (Holanda), daí eu fiz uma listinha de compras de maquiagem e perfume, nããão!, fiz uma listinha de busca de artigos na biblioteca de lá e, como se diz, saiu melhor que a encomenda. 

Essa imagem esteve até numa palestra do Flaviano Celaschi, um dos pesquisadores italianos (junto a Ezio Manzini e Carlo Vezzoli) que de vez em quando, costuma dar uma palavrinha sobre moda com ênfase em sustentabilidade. Ela refere-se a EGO, um serviço de moda que fica em Milão e consiste em: oferecer 365 roupas por ano em 08 estilos diferentes, para que sejam emprestadas uma por vez a cada sete dias por pessoa. Custa uns 90 euros por ano esse serviço que é tipo uma biblioteca de roupa. Esse é um dos conceitos mais avançados em serviço de moda. Aliás, to lembrando, eu ajudei a organizar o evento que trouxe o cara para o Brasil, foi em 2009, na Escola de Desing da UEMG. Conto do evento no meu velho blog de moda ética: http://ethicalfashion.zip.net/

Mas a gente falava era de Quântica. (Que rodeio que fiz para deixar o assunto interessante… rsrs!)

Quântica mesmo tem nada a ver com aquele filme picareta de auto-ajuda Quem Somos Nós (What the bleep do we know?), que tanto agradou às massas e fez com que um e outro estufasse o peito, “oh, gosto de quântica”.

Moro com duas moças do doutorado da UFMG (uma em Química e outra em Engenharia Química), fora minhas outras amigas e amigos de mestrado e doutorado em Química, e fora os colegas do Laboratório de Química Inorgânica (onde tenho um projeto de moda como voluntária), e ninguém gosta de Quântica. Porque a verdadeira Quântica tem nada a ver com aquele filme – que eu inclusive assisti logo que lançou (há uns seis anos) com um cara que dava aula de Física Quântica na Universidade de Brasília. Lembro do rapaz comentar +/- o seguinte: olha, o filme não procede porque se baseia no micro para explicar o macro e nós sabemos que não é assim, estão deturpando as teorias. Em geral, o filme foi bastante criticado pela comunidade científica por deturpar princípios básicos das teorias, especialmente de Mecânica Quântica. E, resumindo a ópera: Einstein deve estar mandando uma energia negativa para os produtores desse filme! hehehe =P

Tem uma frase do Einstein que eu eventualmente imprimo e distribuo aos amigos: "Se nós soubéssemos o que estávamos fazendo isso não seria chamado de pesquisa, seria?" Essas palavras são reconfortantes, mais do que as de Paulo Coelho (ieca!): "tudo dá certo no final".

Piadas e rodeios à parte, vamos ao que interessa.

A palavra quantum indica que o átomo não libera, nem absorve energia de modo contínuo, apenas por meio de “pacotes” com valores específicos de energia. Essa palavra está na origem das expressões Física Quântica e Química Quântica que significam Física ou Química do Quantum. [...] os quanta de energia manifestam-se sob a forma de fótons. Os fótons são quanta de luz e seu nome distingue-se de outros quanta de energia – como é o caso dos fônons, por exemplo, que são pacotes de energia mecânica associados a diferentes níveis de vibração dos átomos. A quantidade energia contida em cada “pacote de luz”, isto é, em cada quantum ou fóton de luz, determina a cor da luz. Na faixa do visível, um fóton de luz violeta contém mais energia que um fóton de luz vermelha. Fótons com menos energia que os fótons de luz vermelha não são visíveis ao olho humano e são conhecidos como fótons de infravermelho. Fótons com mais energia que os fótons de luz violeta também não são visíveis e são conhecidos como fótons de ultravioleta. (PAULA, 2011, p. 65 e 66)

Diversos comprimentos de onda. Tem alguma coisa de Pink Floyd nisso... que será?

E o que esse teco de teoria tem a ver com moda ética?

Muita coisa.

A tecnologia é uma das maneiras de somar valor ao produto de moda sustentável – no contexto de cenário hipertecnológico (além do hipercultural, ambos descritos por Manzini e Vezzoli, 2005). O Brasil ainda está vivendo os anos 70 europeu, no sentido que ainda está educando seu consumidor a perceber o que é sustentabilidade por meio de produtos com aspectos de rústico e personalizados, estética bem alcunhada pelo Trendwatching em junho de 2008 como eco-ugly (eco feio). E bem, um jeito de não deixar o produto sustentável com aquela cara de eco-ugly, tão característico da moda ecológica made in Brazil, é usufruir da tecnologia.

Mas como disse ao falar das roupas do meu namorado, tecnologia na moda custa caro. Na moda sustentável então… (um tecido ecologicamente correto custa em torno de duas vezes mais que um não ecológico).

Dois tipos de denim (tecido que, junto ao pigmento índigo, forma o que chamamos de jeans) associam a quântica na sua história, sendo que um deles é sustentável e outro não. Vamos falar dos dois.

Jeans orgânico com acabamento Alsoft Amazontex, que protege a pele dos raios ultravioletas.

Alsoft Amazontex, da Tavex (que comprou a Santista em 2009)

É um acabamento nos tecidos, que provém das sementes de cupuaçu (fruto típico da Amazônia) e protege a pele dos raios ultravioletas (opa, dos fótons ultravioletas!). Além disso, não contem silicone (amplamente usado nos acabamentos resinados dos tecidos), é hipoalérgico e protege da umidade. A extração do cupuaçu para uso na moda, pela Tavex, configura-se como um projeto social e beneficia 700 famílias na Amazônia (bem, é o que dizem). O cupuaçu pode então valer-se como um protetor solar… E a moda pode reduzir índices de câncer de pele. Isso é ético e ecológico. Eu cheguei a trabalhar com uma malha com Amazontex, tem um toque bem gostoso no corpo.

Jeans da Diesel, que brilha no escuro. O efeito fosforescente dura apenas até a quinta lavagem. Aqui a quântica e a ecologia vão por água abaixo pelo fast fashion.

Luminato Denim ou “jeans que brilha no escuro”, da Santana Têxtil

Tem blogueiro e jornalista de moda confundindo alhos com bugalhos: esse jeans tem efeito fosforescente (escreve-se com “sc”, vem do elemento fósforo; não é florescente, que não existe, nem fluorescente, do elemento flúor). Desabafo: me dá uma canseira ver os termos escritos equivocadamente e por gente responsável por difundir informação e conhecimento… Bem, a Diesel usou em 2010 (inclusive tags e linhas de costura fosforescente), depois foi a Naked & Famous Denim e, por fim, a nossa brasileira Ellus em 2011, cujo carro-chefe é o jeans e é uma das principais marcas de moda do país. Aliás, o empresário Nelson Alvarenga (sua mulher, Adriana Bozon, é a estilista responsável) é considerado o homem mais poderoso da moda brasileira. Cheguei a transcrever uma entrevista dele na Folha de São Paulo em meu velho blog de moda ética. Voltando à quântica: a fosforescência é um treco difícil de explicar em nível de elétrons. Mas vou tentar: os pacotinhos de luz, que chamamos de fótons, tem quantidades diferentes de energia, as quais são proporcionais às frequência das ondas luminosas provenientes da fonte de luz. Até aí, beleza, acontece que há um determinado nível de energia, considerado como “armadilha“, que faz com que o elétron salte da camada de menor energia para a de maior e, ao retornar a anterior, cai na camada (nível de energia) da armadilha (camada metaestável), liberando um fóton de luz característico dessa transição. Essa luz caracteriza o fenômeno luminescente e fotoquímico da fosforescência, que é a capacidade de emitir luz mesmo no escuro.

Único gráfico que achei na internet demonstrando o efeito. Tá ruim de ver, mas mostra isso: o elétron sobe de uma camada para outra, mas quando tenta voltar pra onde veio, eis que há uma armadilha no meio do caminho, e ele é capturado. Ao ser pego na armadilha, ele libera uma luzinha, um fóton, que é sua energia, e é o brilho do jeans no escuro.

Agora, tem um porém: toda a quântica de ambos os materiais vai pelo ralo, isto é, depois de n-lavagens, adeus tecnologia, adeus ecologia. Esses acabamentos ainda são direcionados para o fast fashion, para roupas com pouco ciclo de uso. Não é para durar. Infelizmente.

Mas estamos no caminho, os conhecimentos em Quântica são uma oportunidade para a Engenharia Têxtil se desenvolver na área da Sustentabilidade. ;)