Androginia reclusa

Andrógino. Pessoa que se sente com uma combinação de características culturais quer masculinas (andro) quer femininas (gyne). Isto quer dizer que uma pessoa andrógina identifica-se e define-se como tendo níveis variáveis de sentimentos e traços comportamentais que são quer masculinos quer femininos.

Andrógino. Pessoa que se sente com uma combinação de características culturais quer masculinas (andro) quer femininas (gyne). Isto quer dizer que uma pessoa andrógina identifica-se e define-se como tendo níveis variáveis de sentimentos e traços comportamentais que são quer masculinos quer femininos.

Até eu vi as fotos nuas, que vazaram hoje na internet, da Carolina Dieckman (mãe, foi a sua filha Mônica que passou o link, que, por acaso é este).

Fiquei relembrando algumas conversas com amigos de longe (o Atilio, futuro doutor em Letras, nos EUA), e deu um saudosismo e uma saudade (minimizada pelos e-mails recentes, felizmente). Um dos assuntos, certa vez, foi sobre o corpo da mulher – muito mais interessante, por ser Belo, que o do homem. Na época (eu tinha 17 anos), lia mais, escrevia mais, e cheguei a ganhar ma menção honrosa do respeitoso Instituto Camões, em Portugal, pelo texto a seguir. Era um concurso de literatura para jovens de língua portuguesa.

Eu acho isso tudo muito oportuno, especialmente para a Moda, em que convivemos com muitos gays – e as pessoas insistem em preconceitos. Fora algumas mulheres como eu, que ainda não encontraram seu espaço na sociedade, como disse um amigo (e ex-namorado, o Caio) que chegou a trabalhar num órgão da ONU pelos direitos das mulheres. Esse tipo de mulher, muitas vezes é o homem da relação, o que é bem frustrante, especialmente quando se está com um cara acomodado em seu machismo. Estamos vivendo um momento histórico de mudanças de responsabilidades dos gêneros. E é natural que haja tanta insegurança.

O gênero hoje, é uma escolha social, não uma condição biológica.

E sobre o corpo da mulher, a minha escolha de gênero (que, apesar de tudo, é hétero, constantemente foi hétero, rs) rendeu uma prosa razoável.

Gênero: escolha social.

Gênero: escolha social.

Androginia reclusa

                A minha mulher me fragiliza. Se eu a tocar, um vaso de porcelana se estilhaça no chão, cujos cacos não poderiam ser colados. Um vaso remendado não é vaso nem caco. Portanto quebrado, deve existir como fragmentos isolados.

Começo pelos lábios entreabertos, entre o carnudo e o fino, moldura de um resplandecente sorriso. O nariz é pitagórico, perfeito, o qual junto ao peito arfando, indica a respiração ofegante fruto do êxtase virginal. As maçãs do rosto, matizadas num tom indefinido de rosa e rubro, mais o delicado queixo, desenham com fineza o semblante anguloso.

A testa é ampla, de linhas recônditas, traços de preocupações passadas. As orelhas dispensam brincos e os furos já não são visíveis. Os cabelos ondulados, se secados ao vento, formam cachos castanho-claros de vários comprimentos. Mas o que me retém são os olhos, guardiões de um misterioso mel que, se de soslaio, matam-me de doçura.

O longo pescoço exala a mistura embriagante da flor de alcaçuz, hera, anis e íris. Os ombros espadaúdos encontram as costas em uma postura austera. O colo é gentil e amável, unindo-se à côncava barriga por seios juvenis de auréolas sublimes.

O umbigo possui uma ligação vital com a angélica flor. De profundidades diferentes, circundados por relvas veludosas, são o princípio e o precipício humanos. O clitóris está em Vênus ocultista, cuja descrição cabe à Astrologia.

As nádegas e as coxas se enrijecem em curvas sinuosas. Braços e pernas são delgados e despontam ossos longilíneos, mas que se dobram ao menor toque. As palmas das mãos são as primeiras a manifestar o livre-arbítrio do tato, seguidas pela sensibilidade de um tornozelo e calcanhar de Aquiles. Finalmente, mãos e pés auspiciosamente belos, talvez por causa dos carinhosos dedos, cujas unhas despertam gamas de sensações.

Venusta e vestal, esta mulher minha me assombra, pois insisto em amar os homens.

Ética, moral e trabalho – Francisco de Paula Antunes Lima

Estava lendo um capítulo de um livro de um dos meus profs., o Chico, sobre ética. Fiz um fichamento (meu método de estudo é ler ao menos uma vez, grifar e anotar no texto, fazer um fichamento digitado e, tendo tempo, escrever o que entendi) e segue aí, porque as pessoas costumam se indagar sobre o que é ética, o que é moral e como essas coisas se dão no trabalho. ;)

LIMA, Francisco de Paula Antunes. Ética e Trabalho. In: Psicologia organizacional e do trabalho; teoria, pesquisa e temas correlatos. GOULART, Iris Barbosa (org). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

p. 70

“Enquanto a ética pode ser vista como algo inerente ao processo real da vida em sociedade, a moral aparece mais como uma tentativa ideológica de reconciliação de esferas de vida separadas pela autonomização da economia na era moderna.”

“[...] moral do trabalho como instrumento ideológico de dominação e de controle social [...]”

p. 71

“[...] distinguir entre moral do trabalho e ética no trabalho, como expressão da dupla existência da formação ideal relacionada aos valores, o que nos permite compreender a moral enquanto ideologia de dominação e a ética no trabalho como forma positiva de construção de uma sociabilidade efetivamente humana no interior da própria produção material.”

“Reconhecer a existência de “dimensões éticas” da atividade de trabalho implica, antes de tudo, compreender o trabalho como uma atividade qualitativamente diferente das atividades fisiológicas e cognitivas [...]”

p. 75

“[...] distinguir que valores existem objetivamente no trabalho (ética no trabalho) de sua manipulação ideológica (moral do trabalho) [...]”.

“No interior do ser social assim caracterizado, o sistema ético será o conjunto de valores instituídos pela totalização de atos individuais que se põem em conformidade com os pares categoriais de orientação axiológica: verdadeiro/falso, belo/feio, justo/injusto, eficaz/ineficaz, útil/inútil, agradável/desagradável, todo esse conjunto estando coroado pela distinção moral entre o bem e o mal”.

“Quando recorremos às obras da filosofia moral, nos defrontamos de imediato com um paradoxo: a distinção incessantemente postulada entre esses dois termos [ética e moral] é sistematicamente desmentida pela utilização indiferente de um termo por outro.”

p. 76

“[...] a moral diz respeito aos valores absolutos, enquanto a ética concerne deliberações circunstanciadas e relativamente contingentes.”

p. 76 e 77

“Deve-se dizer ética ou moral? A moral nos lembra a existência do dever e das interdições, ela nos fornece uma doutrina de ação, nos convida a julgarmos a nós mesmos, a nos vigiar e a nos transformar por respeito à regra. Donde a possibilidade do moralismo: atitude que consiste a se especializar em lembrar aos outros seus deveres, de cultivar sutilmente neles o sentimento de culpabilidade, para em definitivo manipulá-los. A ética, ao contrário, remete a uma certa espontaneidade. Sejam hábitos ou modos de um povo, constituídos em uma “segunda natureza”, seja a espontaneidade do próprio indivíduo (os valores que ele põe ao se auto-afirmar), a ética veicula a ideia de nostalgia de uma vida que seria boa e sem problemas, de uma vida que não seria constantemente em conflito com ela mesma, de uma responsabilidade que não excluiria a inocência. Em uma palavra: de uma vida moral sem a moral. Desse ponto de vista, a ética é sobretudo a busca da felicidade, felicidade do indivíduo que escolhe uma existência, felicidade da relação entre os homens, da qual se trata de encontrar a autenticidade (Canivez, 1988).”

p. 77

“[...] a moral assume um caráter prescritivo e normativo; enquanto a ciência dos costumes adota uma postura descritiva. A moral se interessa à universalidade dos valores e normas, enquanto a ética remete à prática social e historicamente situada na qual esses valores e normas são efetivamente postos.”

p. 81

“A ética, conjunto efetivo de valores, normas e regras de convivência social, amálgama das relações intersubjetivas, é normalmente considerada como a força de ligação das relações sociais, que conforma ou orienta do exterior as atividades econômicas. Quando lembrada a respeito dos problemas postos pelo trabalho e pela produção, soa sempre como ideologia e manipulação.”

p. 91

“[...] aspectos particulares do estilo brasileiro de dar um jeitinho (como falar e pedir, implicar emocionalmente o outro com suas histórias pessoais, ser simpático, etc.), o essencial dessa prática social é que o jeitinho só funciona quando não há interesse ou ganho pessoal direto, uso de dinheiro ou corrupção, recurso ao poder ou à força, nem transgressão ilegal das normas, manipulação ou coação ideológica.”

p. 95

“Por que os trabalhadores inventariam novas estratégias para tornar o trabalho mais fácil e mais eficaz?”

p. 103

“Na maior parte das vezes, essas orientações ou ordens são desnecessárias, quer porque os trabalhadores já sabiam como se comportar naquela situação, quer porque são inadequadas. Algumas vezes, dependendo da insistência dos chefes, os operadores fazem o que eles pedem, sabendo que o problema não vai ser resolvido, o que acaba acarretando-lhes uma carga de trabalho maior porque o processo fica mais instável. O mais comum é que os trabalhadores hajam da forma como eles próprios consideram a mais acertada [...]”

p. 108 – definição de trabalho

“[...] o trabalho é, por sua própria natureza, uma prática social, comportando dimensões fisiológicas (é uma atividade que se serve do corpo) e dimensões cognitivas (é uma atividade consciente), mas também dimensões sociais e éticas (é uma atividade que implica pessoalmente o trabalhador e é direcionada a outrem).”

p. 112 – Marx, riqueza

“O que é a riqueza, senão uma situação em que o homem não se reproduz a si mesmo numa forma determinada, limitada, mas sim em sua totalidade, se desvencilhando do passado e se integrando no movimento absoluto do tornar-se? (Marx. Formen. p. 81)”

MARX, K. (Formen). Formações econômicas pré-capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

p. 115

“Temos assim, ao contrário da moral abstrata importada de outras esferas, condições de conceber uma ética que seja intrínseca à própria produção, e que aí funcione como força produtiva efetiva. De modo geral, a ética não aparece como uma esfera superior às outras esferas da vida humana, mas sim uma dimensão que atravessa todas as esferas.”

Piada pronta internacional sobre sustentabilidade

Sustentabilidade: em breve, no Museu da Heineken em Amsterdam, Holanda. By Ravi.

O Ravi, além de amigo e ex-namorado (foram 4,5 anos, diga-se de passagem), é – diríamos - meu “infiltrante” na Europa para investigar sustentabilidade, rs. Ele fotografou essa pérola pra mim nesta semana, lá em Amsterdam, no Heineken Experience.

Esses dias atrás fez um DDI da Itália, onde cursa Ecodesign no Politécnico de Turim, e botamos o papo em dia sobre tudo e todos. Mas sobre sustentabilidade e design, o que de fato nos interessa, o prognóstico é, infelizmente, negativo. No curso que tem feito, tem visto bem pouco de ecodesign mesmo (quem sabe futuramente as coisas mudem). O mercado de trabalho para ecodesign de produto, tanto lá, quanto em BH (onde moro e boa parte dos amigos) e em SP (esses dias atrás, numa excelente balada troquei uma boa ideia com uma amiga nossa que está trabalhando com uma designer premiada e famosa do ramo) é isso: sem muita perspectiva de crescimento. =(

 Já sustentabilidade + comunicação social + marketing, os caras erguem até um totem (materializando a informação) para dizer que ela já está chegando pra ocupar um espaço vazio.

E depois o José Simão (Macaco Simão, colunista da Folha de SP, Band News, UOL Notícias, etc.) diz que o Brasil é o país da piada pronta! Quando se trata de sustentabilidade, a piada pode estar pronta em qualquer lugar do mundo! Não sei se mais alguém “pegou a piada” dessa imagem, mas eu ri demais! 

Em todo caso, explicação da piada: a sustentabilidade é tratada do ponto de vista comunicacional e não intrinsecamente ao produto/sistema. Os caras tratam o assunto esteticamente, quando, na verdade, há todo um sistema (desenvolvimento, produção, distribuição, retorno ao ciclo de vida) que relaciona sustentabilidade com diversos critérios. Não tem como a sustentabilidade vir “em breve”, como no anúncio de um filme. É um enfoque que, quando intrínseco à ética (ou à filosofia, missão) da empresa, faz a mesma “suar bicas” para implantar (engenharia ambiental, certificações, respeito à legislação, aos direitos trabalhistas, etc.). Mas, claro, pode ser que a Heineken já tenha passado por todas essas dores de parto e esteja tomando o assunto com leveza: “guenta aí, que a sustentabilidade já aconteceu na empresa e logo logo chega aqui no museu”. Em todo caso, continua comédia.

Aliás, eu tenho um certo amigo - que está fazendo o doutorado de filosofia numa universidade no Texas (EUA) – que certa vez me disse algo mais ou menos nesses termos:

para não achar graça nessas “tiradas”  (essas piadas prontas) da sociedade, porque essa é uma das intenções do sistema: ao rir, você gosta (sente prazer com a situação estapafúrdia) e não a questiona. Em outras palavras: não se deixar levar pela graça do ladrão e manter a postura de cão-de-guarda, rs. No nosso caso, ficar alerta quanto a ideologia da sustentabilidade quando apenas comunicada e não explicitada/demonstrada em processos, produtos, compromissos com os stakeholders. ;)

José Simão é dos meus preferidos. Eu leio a coluna dele desde os 11 anos (já são 14 anos dando risada das picaretagens made in Brasil).

Sobre ecologia, casamento e Brasil, a pérola: 

“Não existe nada mais ecológico que um homem casado: 25% vai pro leão, 25% para as piranhas na rua e 50% prá jararaca em casa.” (José Simão)

- É nesse nível… Só história mal contada, chacoteando a moralidade das coisas.

Chega de rosa nas meninas!

Princesas da Disney. Elas tem o mérito de popularizarem os contos de fada, tão importantes enquanto representações de acontecimentos psíquicos (falo do ponto de vista jungueano, da psicologia analítica). Por outro lado, estão fortemente relacionadas a cor rosa, que direciona a percepção das meninas

Há anos, a moda infantil, destinada para meninas, vale-se do rosa como cor definidora do gênero. Por outro lado, a cor também é desejada pelas meninas, que experimentam a vida (roupas, lancheira, calçados, acessórios, etc.) por meio da estética “Princesas” (na minha época, era a “Barbie” o símbolo-mor de “la vie en rose”). E, nessa mão dupla, o rosa prepondera, um tanto alienante.

Alientante, sim. As crianças precisam viver com todas as cores em seus objetos do cotidiano, pois cada cor tem uma gama de significados. Abaixo, alguns exemplos do que se encontra na internet.

 

 

 

Se formos ver que as cores ajudam a configurar uma estética (ex. a cor verde explicita a ética da sustentabilidade), a qual, por sua vez está traduzindo um comportamento, o correto seria questionar não a moralidade da cor, mas do comportamento.

Olha só a cor rosa das Princesas no vídeo abaixo:

No final das contas, sabemos que a vida não é tão cor-de-rosa assim e é bom que nossas meninas experimentem toda a paleta, sim, mas antes disso, que elas experimentem novos modos de compreender o mundo que vivenciam por meio dos objetos.

Abaixo, um filme brilhante da mesma Disney das Princesas, que contém várias representações de acontecimentos psíquicos, uma boa dose de semiótica e arte – sem deixar de ter uma “princesa”, sem deixar de ser um desenho animado. “E ainda tem mais” (parafraseando o Polishop), você – profissional ou estudante de moda – ainda pode ver um maravilhoso vestido (que não é rosa!) se transformando com o contexto! Brilhante!

Post polêmico: lendo as entrelinhas da rasa reportagem sobre moda sustentável no Jornal Hoje em Dia, da Globo, de 26/12/2011 e questionando a transparência da marca Jefferson Kulig

Profundo como um pires.

A matéria em questão está disponível neste link; há nela um vídeo que deve ser visto para melhor compreensão. Em todo caso, vou postar na íntegra a matéria escrita para fazer algumas considerações no próprio corpo do texto, a fim de enriquecer a discussão sobre a ética e estética da sustentabilidade na moda.

 

O copo está metade cheio e também está metade vazio. Vamos ver!

A matéria segue na cor preta; meus comentários seguem em azul.

Estilistas usam materiais recicláveis na confecção de roupas e acessórios [O termo "materiais recicláveis" vem sendo usado constantemente, caracterizando matérias-primas como sendo ambientalmente sustentáveis. Mas, não passa de mais um termo vazio, como "design arrojado", que nada em si diz, pois quase todos os materiais produzidos industrialmente são possíveis de serem reciclados; é da condição dos materiais serem recicláveis, por uma ou outra tecnologia. No entanto, os materiais nem sempre são reciclados - em destaque, na indústria da moda.]

Lacre da latinha vira vestido de festa e garrafa pet se transforma em tecido. [Ok, vamos ver como isso se dá mais adiante, no texto.]
Outra maneira de reduzir o lixo é reaproveitar o que se tem no armário. [Talvez seja válido explicitar que a principal forma de reduzir o lixo é evitar o consumo, repensar o consumo. Poderia a TV Globo dizer abertamente para seus telespectadores brasileiros para reduzir o consumo de produtos do setor de moda, para evitar comprar produtos de moda, para desacelerar o consumo de moda, o segundo maior setor de divisas do país (que perde apenas para a construção civil), o setor que mais emprega mão-de-obra feminina e tantos outros predicativos portentosos? Lipovetsky (um dos filósofos expoentes da moda), em "A felicidade paradoxal", e Manzini e Vezzoli (autores referentes para a compreensão de design e sustentabilidade), em "O desenvolvimento de produtos sustentáveis" (vide descrição de cenário hiper cultural), falam - há algunS anoS - sobre essa mudança de comportamento da sociedade para pensar seus hábitos de consumo, de modo a reduzi-los, valorizando serviços em relação aos produtos de moda.]

Cheios de brilho, os vestidos de festa não levam nenhum tecido nobre. O lacre da latinha é um dos materiais que o estilista usou para fazer seus vestidos. Para a coleção inteira, ele precisou de 16 mil lacres. Sacos de fruta e lona de construção também estão na lista. O objetivo é fazer roupas ecológicas e bonitas. [O objetivo pode e deve ser fazer roupas bonitas, sempre, e ecológicas - seja no sentido que Gilberto Freyre dá ao termo, de respeitar a ecologia do Brasil, tropicalidade, etc., seja no sentido de sustentabilidade ambiental. Entretanto, as roupas mostradas pela reportagem, com tais materiais reciclados, correspondem a pelo menos três "estéticas" (aqui no sentido de configuração formal/visual do objeto), que são o "Eco Ugly" (descrito pelo portal TrendWatching em 2008), o" Panda-verde-reciclado" (Vezzoli, 2010) e o Trash Fashion (que eu assinalo e que nós podemos observar a pártir do contestatório vestido de papel de 1967 com estampa das latas de sopa Campbell, de Andy Warhol, e nos últimos anos tem merecido desfiles e prêmios para o lixo que é transformado em roupa - quando contrário é tão verdadeiro igualmente, uma bi implicância lógica), as quais não transmitem apelo comercial do produto. Em geral, produtos que apresentam um material considerado "pobre", de baixo apelo visual, como são os lacres das latinhas, e que tem tal material "disfarçado" como nobre por posicioná-lo em uma configuração visual, isto é, em um arranjo da forma (tão "favela", como Frederico Duarte demonstrou em seu brilhante texto citado na íntegra no post anterior a este neste blog, criticando design brasileiro) simplesmente não tem apelo comercial, não são valorizados por lojistas e consumidores. E aqui há um outro problema, que eu considero maior do que essa discussão de estética que pode cair em um achismo infundado de gosto particular: ao reciclar materiais de outros setores, a indústria da moda está validando o consumo dos mesmos. É como se a indústria da moda dissesse: "ei, podem beber refrigerante e jogar as latas fora, porque nós podemos reciclar parte delas", ou "ei, mandem as lonas de construção pra gente que nós damos um jeito de fazer isso um outro produto". O vestido de lacres de alumínio só está aumentando o ciclo de uso deste material - talvez isso não seja positivo, talvez o mais eficiente seria ir direto para a reciclagem de alumínio, que é o setor que mais e melhor recicla seu material, uns dizem 94%, outros 98%, o que é um percentual muito elevado. O vestido com lacres de alumínio acaba, no final das contas, dificultando a reciclagem dos lacres, porque os mistura com outros materiais (linhas, tecido, cola, etc), indo contra o Design para a Desmontagem e o Design para a Sustentabilidade. E que setor recicla os resíduos têxteis da própria indústria da moda? A Alemanha, seguida da Inglaterra, é referência em reciclagem de têxteis; o Brasil está longe. Levando a discussão para o ponto de vista da ética no design proposto por Flusser (dos filófoso mais estudados no Design e na Comunicação Social), a responsabilidade pelo lixo da moda talvez devesse ser da própria moda. Por que os estilistas insistem em caracterizar seus produtos como ecológicos valendo-se do lixo de outros setores e esquecem-se que o seu setor é um dos maiores poluentes do mundo? E grande parte dos resíduos de tecidos são incinerados! Eu posso ficar falando uma Era sobre isso, desenvolvendo esse assunto ad infinitum, mas vamos adiante...]

Estou rendendo o assunto, mas isso não significa "fazer tempestade em copo d'água". As pessoas querem esclarecimento e há quem aprecie informações precisas. A ética da sustentabilidade não pode ser tomada de forma superficial, como mais um componente da sociedade do espetáculo.

Tem também tecido feito de garrafas de refrigerante. As garrafas pet são separadas por cor, picadas e transformadas em uma fibra que parece algodão. O fio de pet pode ser usado na confecção de qualquer tipo de roupa. [Aqui está outro "caroço" deste angu, e o caroço mais brabo, que não passa na minha garganta. Eu realmente não sei porque "cargas d'água" tanto enaltecem o tecido composto por PET reciclado como sendo algo positivo para a moda, as pessoas e o meio ambiente. O tecido de PET reciclado não é adequado, porque:

  1. valida o consumo de refrigerantes (o PET vem principalmente das garrafas), que é um " alimento pouco necessário na alimentação", por assim dizer. Valida o consumo de poliéster, transferindo o problema da reciclagem do setor de polímeros para o setor de têxteis;
  2. o tecido composto por PET, em geral leva algodão não orgânico na composição, isto é, o tal algodão convencional que, como já disse: a união do PET com o algodão tem ainda mais dois problemas: enquanto o algodão é uma fibra natural, que permite a transpiração e facilita a lavagem (porque é bem "poroso" e, logo, água, sabão e suor penetram, entrando e saindo das fibras), o poliéster é rígido, "condensado", sem "poros" (ou seja, dificulta a transpiração, a passagem do suor pela roupa, dificulta a lavagem e, com o tempo, vai amarelando, reagindo com suor, desodorante, sabão, formando umas "placas" embaixo do braço). Agora, o PET tem um lado positivo, fixa melhor a cor que o algodão - mas, ora pois!, o tingimento é principalmente de pigmentos inorgânicos, metais e sais pesados. Então, qual o real valor da sustentabilidade ambiental nesse tecido?
    • ocupa uma área de 3% do globo;
    • consome 25% (uns falam em 23%) de todas as inseticidas consumidas no mundo e cerca de 10% de todas as pesticidas;
    • em torno de 160 gramas de agrotóxicos são usados para confeccionar uma camiseta que possui 250 gramas de algodão;
    • trabalham 40 milhões de pessoas nessas plantações, em péssimas condições, de extrema pobreza e insalubridade;
    • todo ano morrem em torno de 20 mil de pessoas por causa dessas plantações de algodão;
    • a maioria das plantações de algodão normal concentram-se em 22 países em desenvolvimento, como Brasil e Índia;
    • ou seja, a fibra PET está associada a uma fibra infimamente sustentável quanto ao critério ambiental e social;
  3. há uns oito anos, a indústria da moda lançou o jeans com garrafa PET - que ficou famoso pela comercialização da marca Carlos Miele, que costuma investir em jeans diferenciados. Porém, conforme um representante da Tavex (que comprou a Santista), dos principais fornecedores de têxteis do mundo, me contou: esse jeans com PET não vingou no Brasil porque é "quente". Claro. Trata-se de um tecido que tem plástico na composição (PET é um tipo de plástico) e de um país tropical, em que o calor vigora na maior parte do tempo e do território. O raciocínio é semelhante: essa malha com PET é ideal para o inverno. Ao contrário do que afirma a reportagem, o tecido de PET não fica bem para qualquer tipo de roupa (nem qualquer estação), indiscriminadamente.
  4. particularmente, me incomoda ver empresas do porte e esclarcimento como Natura, comercializando produtos de vestuário com a tal da malha Eco PET. Eu mesma, tenho uma camiseta dessa empresa - que só uso dentro de casa, porque o desgin dela me desagrada, mas, enquanto pesquisadora de moda e sustentabilidade, tenho que comprar essas coisas pra testar. Vou deixar a narrativa do teste dessa camiseta para outro post, daí boto foto e tudo o mais, mas afirmo, enquanto consumidora, que é mais um lixo industrial essa camiseta de malha eco pet: esquenta, mancha, desbota e tem um toque adstringente, meio áspero - que só quem está habituado a tangenciar tecidos sabe do que estou falando, é difícil descrever o toque de um tecido, o toque em si, o tato, é mais eficiente para embasar o argumento. Procurem vestir camisetas de malha de PET e tirar suas próprias conclusões...

    Com essa imagem (de MEV, microscopia eletrônica de varredura), dá para ter uma ideia do que estou falando sobre a fibra de algodão e de PET. A figura da esquerda mostra um polietileno puro - o poliéster se assemlha a isso. E a figura da direita mostra um compósito de polietileno com 30% de juta, que é uma fibra natural - o algodão é tipo isso, só que mais cheio de "fiapos", "poros", "irregularidades".

A indústria já encontrou maneiras de transformar o que era lixo em roupa nova, mas o que fazer quando a roupa é que vira lixo? Restos de tecidos podem contaminar o meio ambiente.
Se forem jogados em aterros, demoram até 300 anos para se decompor. [Esses dados estão muito vagos, vamos destrinchar isso. No Brasil, as duas principais fibras têxteis que compõem os tecidos são algodão e poliéster. As condições de decomposição variam, mas em geral, pode-se afirmar que o tecido de algodão leva em torno de 01 a 05 meses para decompor, o poliéster - que é um tipo de polímero/plástico - leva mais de 100 anos, e os polímeros em geral levam até 400 anos. O Inventário Nacional de Resíduos Sólidos, em 2008, demonstrou diversos destinos dos resíduos têxteis. Restos de tecidos, se jogados no meio ambiente, contaminam o mesmo, pois são um material estranho ao mesmo, manufaturado. Recentemente, em 2010, começou a vigorar a Lei nº 12.305, consoante a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que, em uma interpretação livre e simplista, obriga a empresa a se tornar responsável por seus resíduos.]

Uma empresa de Maringá transformou o que poderia ser um problemão em matéria-prima. A fábrica recebe 10 toneladas de retalhos por dia. São sobras das indústrias de confecções e servem para produzir estopa, usada na fabricação de colchonetes e acolchoados. [Essa é apenas uma das soluções para os resíduos sólidos da moda, que são basicamente os seguintes:

  1. Provas de tecidos
  2. Amostras
  3. Produção “off-cortes”, como sobras de infestação (boa parte dos "retalhos" está nesta categoria)
  4. Final de rolos
  5. Ourelas
  6. Tecidos excedentes
  7. Tecidos com defeitos

Na Alemanha, aproximadamente 460.000 toneladas de vestuário/roupas são recolhidas e reutilizadas. O que eles estão fazendo lá? Transformar em estopa e "recheio" de objetos é das soluções mais elementares, "meu caro Watson". O que essa empresa em Maringá faz não é nenhuma novidade, inovação. Há alguma outra relação da empresa com a reportagem?]

Outra maneira de reduzir a quantidade de tecido que vira lixo é comprar menos e reaproveitar o que se tem no armário. A ideia virou tendência na Europa. É o chamado slow fashion. Aos poucos, o movimento tenta conscientizar consumidores e provar que menos pode ser mais. [Tendência??? Prefiro não comentar a semântica desse termo, uns trocariam por comportamento de uma minoria, que vem ganhando visibilidade. Eu prefiro atentar que o slow food surgiu em 1986 (uns dizem 87, outros 89) e, a partir da ideia de comportamento slow, surge o slow fashion - hoje em dia, tem slow pra tudo, slow science, slow sex, etc. No caso do slow fashion, não se trata de um movimento organizado, mas de um comportamento de consumo que recebeu um nome e se desenvolveu enquanto conceito, aplicável para o pensamento da dinâmica da moda, considerando todos os seus stakeholders. Creio que estejam explicando o slow fashion por meio do slow journalism, mas isso é só uma suposição vaga ou uma provocação desnecessária - em todo caso, o intuito seria não perder a piada! hehehe]

“As pessoas estão obcecadas pelo novo. Só sabem colocar o cartão de crédito na máquina para gastar dinheiro”, diz Kate Fletcher, consultora de moda sustentável. Segundo Kate, os preços das roupas nas lojas populares da Grã-Bretanha caíram 25% nos últimos dez anos. Nunca antes foi possível comprar tanto, tão barato. [Muito legal! Conseguiram entrevistar uma das principais pesquisadoras de moda sustentável do mundo, que investiga o assunto há 20 anos! E o que tiram de proveitoso de sua fala? Poxa, a Kate Fletcher tem muito o que dizer de mais relevante sobre o assunto; a citação dela na matéria escrita não é nada de mais, só reitera o senso comum. Já no vídeo, foi melhor aproveitada, embora as considerações de slow fashion tenha sido deveras resumidas. Que façam mais entrevistas com ela!! Particularmente, depois dos integrantes do Pink Floyd, a Kate Fletcher é a figura pública que eu mais admiro - mas isso não vem ao caso, só estou tratando o assunto com a leveza com que o mesmo trata seu receptor.]

Além de pregar um equilíbrio maior no consumo, o slow fashion defende marcas éticas e propõe algumas mudanças de hábito, como ir às compras em brechós, trocar peças com os amigos e alugar bolsas de luxo, ao invés de comprar. [Sim! Há diversos tipos de serviços - e a Itália (vide Milão) tem demonstrado isso bem - de moda voltados para a sustentabilidade. Aliás, o slow fashion é um conceito que baseia-se no de slow food, que surgiu na Itália.]

No Brasil, o estilista Jefferson Kulig aposta na moda sem exageros. Ele diz que o guarda-roupa deve ter mais peças clássicas duráveis e menos espaço para tendências passageiras. [Tenho uma simpatia particular pelo estilista Jefferson Kulig: durante meses, este meu blog apresentou no layout um banner direcionando para a e-shop de Jefferson Kulig. Cheguei a fazer comentários sempre muito positivos sobre as roupas (materiais, configuração, estilo) de Jefferson. Mas nos últimos três meses, algumas situações me fizeram repensar a questão da ética da marca. Faz tempo que estou para citar os fatos e acho que agora é oportuno, e eu vou me limitar a apenas duas (porque essa marca me deu canseira com as evasivas)que ressaltam a questão da transparência da mesma. Vamos lá:

Até meados de 2011, este blog ofereceia um desconto de 30% - que depois passou a ser de 15% - nas roupas da e-shop do Jefferson Kulig, aos leitores do blog, por meio de um código (MDTC) localizado em post específico, o qual deveria ser inserido no ato da compra virtual, como um código de cupom promocional. Em contrapartida, eu receberia 10% do valor devidamente depositado na minha conta corrente em banco. Sinceramente, nunca conferi  se isso funcionou, se caiu algum dinheiro na minha conta. Além disso, foi concedido ao administrador do blog (no caso, eu) descontos de 50% em até duas peças de roupa por mês adquiridas na e-shop. Eu nunca comprei nenhuma roupa do Jefferson Kulig.

Um dia (19/10/2011), depois do próprio Depto de MKT ter comunicado o fim da parceria dos blogs com a marca, qual não foi minha surpresa ao receber um e-mail da mesma, citado na íntegra:

A marca  Jefferson Kulig, estabelecida no mercado  brasileiro desde 1992 e presente no line-up do SPFW desde 2002, inaugurou em 2009 sua loja virtual - o E-Shop JEFFERSON KULIG.   No ano seguinte realizou parcerias com blogueiras(os) de todo o Brasil, proporcionando benefícios para ambas as partes.  Devido a um redirecionamento do e-commerce e mudança de estratégia, foi dada uma pausa na parceria, agora retomada em um novo formato.

Atualmente comercializamos a linha de Camisetas Premium Jeffer.son, estampadas com tecnologia digital, reproduzindo com qualidade e design único, em um processo que  respeita o meio ambiente.  O processo é mais sustentável, pois elimina a necessidade de desenvolvimento de fotolito, matriz serigráfica e a preparação das cores, diminuindo consideravelmente o uso de matérias e energia.

O blog parceiro deverá disponibilizar um espaço para um banner promocional (o mesmo banner que teremos no blog oficial da marca) com link para nosso e-shop, que será trocado periodicamente de acordo com as ações promovidas, e em contrapartida a isso o blog terá desconto de 20% em nosso e-shop, exclusivo para o proprietário do blog, que poderá participar de ações em eventos virtuais e físicos (SPFW entre outros) e receberá informações sobre moda e noticias da marca em primeira mão, como os sites abaixo recebem:

http://msn.lilianpacce.com.br/home/jeffer-son-jefferson-kulig-camisetas/http://ffw.com.br/noticias/designer-brasileiro-lanca-linha-de-camisetas-premium-a-precos-acessiveis/http://elle.abril.com.br/blogs/elle-news/tag/camisetas-jefferson-kulig/http://colunas.criativa.globo.com/bicharada/2011/09/27/jefferson-kulig-lanca-linha-premium-de-camisetas-com-estampas-de-animais/http://modaspot.abril.com.br/news/jefferson-kulig-lanca-linha-de-camisetas-femininashttp://blooming.plex.com.br/2011/08/26/jefferson-kulig-lanca-marca-de-camisetas-premium/

Para aderir a esta parceria com a JEFFERSON KULIG, responda ao cadastro abaixo e envie para o e-mail radar@jeffersonkulig.com.br. Sendo aprovado, receberá seu código de cupom de desconto juntamente com banners em vários formatos para ver qual condiz mais com seu blog.

A seguir, a resposta que eu lhes dei em 26/10/2011:

Cara Sonia ou outrem, bom dia,

a nova proposta de parceria é bem inferior a anterior que era mantida, pois não oferece vantagem alguma aos leitores do blog. Quanto ao proprietário do blog, somente é vantajoso por vincular a imagem de uma marca (que eu, até então, julgo de respeito) ao próprio blog - não considero vantagem desconto de 20% em bem consumível.

Sendo assim, caso realmente se estabeleça parceria, ao menos enviem a imagem do banner mais o seu respectivo código em HTML, necessário para a plataforma de hospedagem em WordPress. Na parceria anterior, a pessoa do MKT JK responsável por essa questão havia ela mesma inserido o banner em meu blog, tendo hospedado a imagem em um site, mas depois - sabe-se lá porque - tirou a imagem que estava hospedada / "desospedou", excluindo o código HTML respectivo. Eu havia entrado em contato pedindo m novo banner com código, mas na época a resposta foi que estavam reformulando a proposta de MKT, coisa que inclusive disseram pessoalmente quando estive no Minas Trend Preview do semestre passado.

O argumento de que a roupa é sustentável, somente frisando o processo de estamparia digital, é raso. É necessário saber qual a composição da matéria-prima usada e como é o processo produtivo e de distribuição (como são reduzidos os seus impactos no meio ambiente). Se não, a roupa não é sustentável, somente a estamparia causa menor impacto ambiental comparando-a com outros processos de estamparia. Sei que algumas (ou seriam todas?) imagens estampadas são de Andrew Zuckerman. Já que não se tratam de imagens desenvolvidas pelo Depto de Estilo/Design JK, por que não divulgar o autor das imagens? http://www.andrewzuckerman.com/site.html#?dr=0

Acho que falta um pouco mais de cuidado com essa proposta de parceria, afinal se trata de uma marca séria, não é mesmo?

Abs,

Luciana Duarte

No mesmo dia, me responderam o seguinte:

Cara Luciana,

Entendemos seu posicionamento.

Iremos estudar as questões levantadas. 

Obrigado pela atenção.

Equipe Jefferson Kulig.

Já há exatamente dois meses, não recebi nenhum comunicado da marca, seja defendendo a sustentabilidade dos produtos, seja defendendo a suposta parceria com o talentoso fotógrafo Andrew Zuckerman. Coincidentemente, "meu caro Watson", parafraseando novamente Sherlock Holmes, desde este ocorrido, tenho verificado que as camisetas que são lançadas não tem mais imagens do talentoso e famoso fotógrafo - mas estou tomando muito cuidado para não supor nada, nem inferir nada, pois não detenho dados objetivos, apenas coincidências e omissões da marca.

Ei, Jefferson, responda minha pergunta:

Já que não se tratam de imagens desenvolvidas pelo Depto de Estilo/Design JK, por que não divulgar o autor das imagens?

Fotos de Andrew Zuckerman estampam roupas de Jefferson Kulig. Os direitos autorais não são mencionados pelo Depto de MKT.

Printscreen do site de Andrew Zuckerman, que tem video com gente como Ozzy Osbourne, Lenny Kravtz, Ravi Shankar e Philip Glass falando no site sobre música. Fora as fotos maravilhosas de aves.

No site da e-shop da marca, não consta nenhuma referência aos direitos autorais do fotógrafo. Vide:

“Sua busca não encontrou resultados”. Andrew Zuckerman, famoso fotógrafo, cujas algumas imagens estampam as camisetas de Jefferson Kulig, não é citado no site. Tampouco a empresa se pronunciou confirmando a parceria. Meu namorado deu esse printscreen no dia 27/10/2011 – e desde então eu estou guardando o assunto para o blog. O namorado, que é pós-graduado em marketing, ainda me orientou: “Esse projeto deles de mkt quer espalhar a marca deles no maior numero de blogs possível, mas os de peso, que discutem o tema com seriedade e ética de verdade, tem um publico qualificado segmentado como você, eles TEM que oferecer algo melhor que esse desconto. Aposto que se chegar na loja e falar q paga a vista duas peças eles dao 20%. Seu publico é no alvo em quem eles querem atingir e vc ia dar de graça pra eles.”

Meu caro leitor,

olho aberto!!! ;)

No mais, por que o jornal não trouxe a pauta do slow fashion antes do Natal, hein? O compromisso da mídia parece ser com a indústria; no dia seguinte é com o consumidor.

E o Jefferson Kulig? Não compreendo esse direcionamento de MKT deles.

Novas mudanças + o papel dos designers (projetistas)

Venha ver o novo!

Finalmente, mudei o layout do blog (assinantes por e-mail, confiram!), privilegiando a leitura dos posts. Como disse o namorado, “promovi os posts a gerente do blog”, rs. O novo layout (do WordPress mesmo) atende melhor o fluxo de cliques no blog, mas é ainda um layout de transição, de teste, para o próximo que vou planejar com cuidado, com designer gráfico e programador.

A vontade de carregar a própria casa para um novo endereço OU mudar de casa e de endereço? O NEONOMADISMO, um dos principais comportamentos do homem hoje, é carregar sua casa consigo, carregar tudo (notebook, comida, roupa, etc) no carro.

Sei que ainda há muito a melhorar, mas vamos com um passo de cada vez. Quando fazemos um redesign, quando propomos alguma mudança em um projeto já existente, não podemos ser muito radicais, porque as pessoas tem que se acostumar com o novo, senti-lo de maneira amigável – e não bruscamente. A coisa funciona no seguinte esquema:

coisa existente >>> redesign da coisa >>> inovação da coisa

Sem a etapa de transição (que podem ser várias, e até uma questão de estratégia da empresa), isto é, sem o redesign (ok, a maior parte dos designers detesta fazer adaptações no que já existe, a gente prefere começar do zero), o caldo pode desandar absolutamente. Um dia a gente vai acordar desse papo mercadológico sobre a urgência da inovação e se dar conta de que há mudanças graduais.

Carro é um trombolho anti-ecológico. Melhor juntar os vizinhos e carregar a casa. Opa! mas tá muito pesada, é muito material, muita matéria! Ah, então é melhor DESMATERIALIZAR os objetos, um dos principais direcionamentos da sustentabilidade no design e na engenharia. Desmaterializar produtos e processos.

Pessoalmente, não compartilho dessa visão evolucionista dos produtos (que vem desse pensamento darwiano, típico do século 19), que prega um produto novo melhor que o anterior. Não! Sou mais a visão antropológica (como a que Duvignaud propõe na Sociologia da Arte; há uns anos fiz curso de Antropologia da Arte) para os produtos: os bons, médios e ruins coexistem e cada qual tem seu valor e sua moral para seu respectivo usuário.Nós estamos no século 21, na plena pós-modernidade, em que a moral é relativa e a Verdade é multifacetada.

Relógio de forma multifacetada de Diane von Furstenberg para a H. Stern. Desde 2008, mais fortemente, vem se consolidando a estética das FORMAS LAPIDADAS. Karl Lagerfeld, da Chanel, fez uma coleção para a Rosenthal (cerâmica) nessa época; Dior fez embalagens de maquiagem "lapidadas". A arquitetura contemporânea super enfatiza essa geometria. Eu cheguei a fazer um exercício de projeto (embalagem de perfume) em 2009 que privilegiava essa estética do MULTIFACETADO. Se a gente for olhar para trás, foi Picasso (ok, Braque também) que iniciou essa desconstrução da totalidade, tornando-a visível em suas diversas verdades - Cubismo (do séc. 19 ao 20).

Manizi e Vezzoli (2005, p. 71) diriam, sobre o papel dos projetistas, que:

O projetista não tem a legitimidade e nem os instrumentos para obrigar (através de leis) ou para convencer (através de considerações morais) qualquer um a modificar o próprio comportamento. [...] ele só pode oferecer soluções, isto é, produtos e serviços que qualquer pessoa possa reconhecer como melhores do que os oferecidos anteriormente.

O projetista só pode atuar em relação aos sistemas sociais e econômicos já existentes, e em relação às demandas desses sistemas. O que significa que pode (e deve) ser crítico nos confrontos do já existente, mas não pode ter uma postura radical (pois nesse caso pode perder a possibilidade de desempenhar qualquer papel como projetista).

Nossa, mas então, o que que dá para o designer fazer???

Os autores afirmam que:

contribuir com o aumento do número de alternativas, estratégias de soluções de problemas

promover as suas capacidades (habilidades e possibilidades) de intervir pessoal e diretamente na definição dos resultados e dos meios para alcançá-los

pode estimular a sua imaginação, isto é, a sua propensão a vislumbrar soluções ainda não expressas claramente [...] tentar influenciar o mundo existente

Devemos lembrar que estamos em um momento histórico de transição para a sustentabilidade. E Manzini e Vezzoli apontam a tarefa do projetista, rumo à sustentabilidade:

não é a de projetar estilos sustentáveis

é propor oportunidades que tornem praticáveis estilos sustentáveis de vida

Ah, quer ouvir mais?

Então toca Raul! Toca Rauuuulll!!!

E toca um dos maiores rappers (dos meus preferidos) que já passou neste mundo, Tupac, falando de mudanças:

Não ame a sustentabilidade!

Eu, meus amigos João Rafael e Laura e minha irmã Mônica (obrigada por hoje!), depois de umas horas de trekking, quando éramos adolescentes. Com esses e outros amigos, aprendemos a falar "eu te amo", e isso é muito grande e forte pra caber num peito só. Tem que dividir, tem que doar.

Esse papo todo nosso de sustentabilidade podia se resumir em uma frase apenas:

amar o próximo como a si mesmo.

Isso é uma coisa muito profunda e sobre a qual não há muito o que explicar:

ou as pessoas sentem e agem com esse sentimento

ou ficamos  a criar regras para conduzir a moral pessoal, delimitar a ética industrial, etc. 

Atitudes de sustentabilidade implicam em respeitar o mundo e as pessoas desse mundo. Mais que o respeito, que pode equivaler-se a uma estudada polidez, o amor é a maior virtude, como diria o filósofo francês Auguste Comte-Sponville. E só o amor constrói, só o amor transforma. Mas as pessoas estão tão condicionadas em suas realidades mesquinhas, desejos egoístas e tem vergonha ou medo (ou o que?) em falar de amor, mais que isso, em amar. As pessoas tem medo de amar. Porque amar é se entregar pelo outro. E como diria um dos meus poetas preferidos, o itabirano Carlos Drummond de Andrade,

amar só se aprende amando.

Quanto mais eu estudo sustentabilidade, mais penso que nós temos que aprender com o sentimento.

As coisas são muito simples; a razão é que cria monstros.

A razão cria monstros e "Deus está morto", como diria o filósofo alemão Nietzsche, para o qual também "o amor é o estado no qual os homens tem mais probabilidade de ver as coisas como elas não são". Um contraponto é sempre bom para a nossa lucidez.

Nelson Ascher (ex-colunista da Folha de São Paulo e mais que isso: poeta, jornalista, tradutor, intelectual) mencionou há tempos (2008) o termo igrejinha verde e fé apocalíptica na sustentabilidade (leia um pouco aqui). Isso gerou um bafafá na época, e eu concordo plenamente, sem contudo deixar de acrescentar a minha opinião.

"O sonho da razão cria monstros", do espanhol Francisco Goya.

Há uma certa lavagem cerebral da sustentabilidade a nos doutrinar a salvar o planeta. A coisa não deve vir de fora para dentro: não há moral cristã ou moral ecológica que faça alguém amar o próximo como a si mesmo e, por conseguinte, fazer o bem à sociedade e à tudo que a tange e sustenta, isto é, resumidamente, o mundo. Shazam!

No mais, como diria minha querida irmã ateia e nerd (com quem acabei de tomar uma), parafraseando o Eclesiastes (que eu também adoro reler eventualmente),

tudo é vaidade e vento que passa.

Uma vez sabendo da fugacidade do tempo e efemeridade do ego (tão líquido nesses tempos de pós-modernidade, como diria o controverso sociológo polonês Zygmunt Bauman), amar é a única possibilidade para uma coesão da humanidade.

Resumindo a ópera: não devemos amar a sustentabilidade, que isso é aceitar uma ideologia meramente, mais uma ideologia. Amar o próximo é maior que tudo isso.

E finalizamos aqui com um dos meus poemas preferidos, do grande escritor D. H. Lawrence, que clama ao final para que o Cristo ressuscite como forma de agir.

Nãos                     

(poema traduzido de Dont’s de D. H Lawrence)

Lute, menino, sua luta de nada,

vá a luta e seja homem.

Não seja um bom menino, um bom moço,

sendo tão bom quanto você pode ser

e concordando com todas as matreiras, manhosas

verdades que os fingidos encenam

para se protegerem e à sua

ávida, glutona, gulosa

covardia de escolados grosseiros.

Não corresponda à queridinha que acaba

por custar sua macheza e te fazendo pagar.

Nem à velha mamãezona que orgulhosamente se gaba

de que você vai ser um dos que vão chegar.

Não conquiste opiniões valiosas, abalizadas

opiniões valendo obrigações do Tesouro,

de homens de todo tipo; não fique devendo nada

ao rebanho engordado para o matadouro.

Não queira ter meninos bons, bonitinhos,

os quais você terá de educar

para ganhar a vida; nem meninas gostosas, uns docinhos,

que vão achar muito difícil trepar.

Também não queira uma casinha, com os custos

que você terá que agüentar

ganhando a vida enquanto a vida se perde, e o susto

da morte um dia vem te agarrar.

Não se deixe sugar pelo sup-superior,

não engula a isca da cultura a chamar,

não beba, não vire um cervejado senhor,

 aprenda, isto sim, a discriminar.

Mantenha-se inteiro e lute atento,

empurrando daqui ou empurrando de lá,

e tendo à noite o consolador sentimento

de que um pouco de ar você fez entrar.

No chiqueiro do dinheiro esse ar renovado

você pôs pelo buraco que na prisão pôde abrir,

fazendo o pouco que podia, empenhado

em que o Cristo ressuscite como forma de agir.

Dica do namorado: os erres

Neste final-de-semana, o namorado veio me ver e a certa altura começou a rir de mim, mas só disse o porquê depois… É que ele aprendeu a perceber quando eu reparo nas roupas dele e notou quando eu fitei por segundos (tentei ser discreta) seu calçado – ele propositadamente havia escolhido um dos mais velhos e nunca antes usados ao meu lado. Caí direitinho… Foi engraçado, rs.

Anedotas a parte, o Bruno deu a dica de uma música do Jack Johnson, “The 3 R’s”, cantada para crianças aprenderem sobre reduzir, reciclar e reutilizar.

Atualmente, a educação ambiental fala em 5 R’s:

  1. Repensar os hábitos de consumo e descarte
  2. Recusar produtos que prejudicam o meio ambiente e a saúde
  3. Reduzir o consumo desnecessário
  4. Reutilizar e recuperar ao máximo antes de descartar
  5. Reciclar materiais
Eu acrescentaria um sexto erre:
6. Ressignificar o produto. Como tudo na vida, as coisas são as coisas em si, porém as coisas têm o valor e significado que nós atribuímos a elas. Então, ressignificar é mudar nossa compreensão do produto de modo a aumentar seu ciclo de vida e de uso.
E como diria um verso da Cecília Meireles (do rol de poemas que decorei na infância): com tantos erres, não erres. ;)
*Valeu Bru, beijos!