Miranda Kerr, embaixadora global da Earth Hour, dá uma aula de ioga se você…

A "angel" e top model Miranda Kerr, incentivando uma atitude eco-friendly.

A "angel" e top model Miranda Kerr (casada com o ator Orlando Bloom), incentivando uma atitude eco-friendly.

A notícia abaixo é reproduzida da Vogue.

Miranda Kerr é a nova embaixadora global da Earth Hour, ação organizada pela rede WWF que encoraja pessoas mundo afora a apagar as luzes e desligar aparelhos que utilizem energia elétrica por uma hora, às 21h30 (horário de Brasília) do dia 31.03. A exemplo de Gisele Bündchen (que foi a embaixadora da ação em 2010), a top model australiana gravou um vídeo convocando seus fãs a fazer parte do evento eco-friendly.

Bonita e do bem. Isso me faz lembrar o pensamento socrático de estética e ética, uma bi-implicância do bom e do belo...

Bonita e do bem. Isso me faz lembrar o pensamento socrático de estética e ética, uma bi-implicância do bom e do belo...

“Acredito que todos têm poder para mudar o mundo em que vivemos”, ela diz.  Na sequência, propõe uma recompensa para quem ajudá-la na tarefa de promover o uso consciente de energia e a preservação do meio ambiente: “Darei uma aula gratuita de ioga se 500 pessoas fizerem o upload de seus próprios vídeos para o desafio ‘I will if You Will‘ no canal Youtube.com/Earthhour .

Quer uma aula de ioga com Miranda Kerr? Então trate de espalhar a mensagem – até o momento em que esse texto foi postado, 238 vídeos já estavam no ar!

 

Tá bonito, de saia ou de vestido!

Marc Jacobs inovou com vestido!

Marc Jacobs inovou com vestido!

Atualmente, a questão do gênero não é mais uma definição biológica, mas sim uma escolha social.

Há uns poucos dias, estive em uma boate gay, na Savassi, com as amigas. Clima legal, paz e amor. Preconceito até quando? Falar a verdade, a primeira vez que vi um casal gay dando uns amassos (em um local ermo em que eu cortava caminho na UFMG, rs, em 2008), fiquei assustada, impressionada. Afff. A gente cresce, felizmente as percepções mudam. Estava bonito de ver tantos casais gays demonstrando seu afeto. – Já eu e as amigas (héteros, diga-se de passagem) nos divertimos pra valer, dançando e bebendo.

Ontem, o Marc Jacobs (para quem chegou de Marte: um dos maiores estilistas do mundo) apareceu usando um vestido (ele costuma usar kilt e saia longa, mas sempre com uma pegada mais máscula, por assim dizer). E deixou a moçada da moda cheia de interrogações, opinando se convinha, etc. Bem, pois eu apoio. Tem atitude e está bonito. Queria que mais homens – héteros especialmente – usassem mais saias. Na minha percepção (até hoje), o cara pra usar uma peça tão característica da construção do gênero feminino, tem que ter muita auto-confiança no próprio gênero. E seria também uma expressão estética de que a sociedade estaria mudando sua ética de machismo e patriarcalismo. Que Marc Jacobs (sempre talentoso) seja mesmo vanguarda e anuncie tempos mais pluralistas e equitativos! Homens de saia ou vestido poderiam representar mais respeito pelas mulheres. Uma revolução na moda masculina seria uma revolução na sociedade – e difícil de saber qual implicaria na outra, mas se infere que a última na primeira, dado que a estética costuma ser um reflexo/expressão da ética.

Pessoalmente, defendo que homens (héteros e gays) ficam extremamente bonitos e instigantes de saia. (Mas convencer o meu namorado desse meu ponto de vista é muito difícil…). Vejamos alguns estilos:

Agora sim: Feliz Dia da Mulher!!! =)

Leia mais sobre a saia masculina neste blog:

Muito feio, Jefferson Kulig!

O que vemos aqui?

1) Uma marca - Jefferson Kulig – fazendo lançamentos de produtos em ritmo de fast fashion. Consuma, consuma camisetas com estampas de bichos (ou de flores, essas tão feias; e flores são tão belas…). Já marquei no meu e-mail como spam – nenhuma outra marca enche tanto a caixa de e-mail como esta! Isso é muito cansativo.

2) Uma marca menor – Jefferson Kulig – adotando a estratégia de ir no rastro de uma maior – Burberry. Complexo de inferioridade? Comensalismo fashion? E/ou a velha história da moda brasileira na antropofagia do gringo? Antes Jefferson Kulig já havia feito a mesma divulgação de seu produto, mencionando as estampas gastronômicas da Prada e fazendo uma versão abrasileirada das mesmas. – Oi, criatividade, cadê?

3) E essas corujas? Seriam mais uma das imagens copiadas, sem creditar os copyrights ao autor (Andrew Zuckerman) das mesmas? Uma vez que a marca copia e não menciona o autor (isso seria dizer que a marca rouba imagem de alguém?), ela fica sob suspeita. Como diz o ditado: ninguém acredita em um mentiroso quando ele diz a verdade.

Tenho muitas dúvidas quanto ao posicionamento que a marca tem tomado. A marca é ética? Os indícios são que não.

E questão de gosto pessoal: as camisetas da Burberry são mais bonitas.

E questão filosófica: falta de ética é feio mesmo, implica em objetos feios.

Segue abaixo, um trecho que escrevi em um trabalho científico sobre essa relação de ética e estética (já tem tempo, 2010).

A ideia de comportamento benéfico implica na compreensão da estética, um “espelho” da ética. Do grego aísthesis, estética significa sensação, sentimento, “debruçando-se sobre as produções (artísticas ou não) da sensibilidade, com o fim de determinar suas relações com o conhecimento, a razão e a ética” (ROSENFIELD, 2009).

As relações intrínsecas entre ética e estética remetem a educação grega nos tempos de Sócrates, com o conceito da kalokagathía[1], isto é, da “ideia de uma convergência do valor estético com os valores éticos (utilidade social e política) da comunidade” (ROSENFIELD, 2009), a qual inclusive sustenta a Paideia[2] clássica. Trata-se de uma educação que busca sempre associar a ética à “política da estética e das técnicas de produção dos (belos) objetos” (ROSENFIELD, 2009). Essa intrínseca relação entre ética e estética é explicitada a seguir:

o indivíduo que tem valor moral é suscetível de agir belamente, e, vice-versa, o indivíduo belo tem a possibilidade de atos moralmente bons. No entanto, acrescenta Sócrates, esse elo não é dado – estabelece-se com vistas a algo outro: a utilidade, ou seja, é referido a uma finalidade (ROSENFIELD, 2009, p.11).

Constata-se que a compreensão atual do elo ética / estética ainda hoje remete ao pensamento socrático. Para De Moraes (2009, p. 41),

a estética vem sendo considerada como um reflexo do comportamento do homem enquanto ser social (aqui entendido como grupo coletivo), das apreciações referentes às condutas e atitudes humanas. Isso é a ética, que acaba podendo influenciar a estética da cultura material.


[1]   Termo grego que compreende o belo e o bem.

[2]  Do grego paidos, criança, tem diversos significados, como: criação de meninos; cultura construída a partir da educação; herança de uma sociedade para outra.

Ética, moral e trabalho – Francisco de Paula Antunes Lima

Estava lendo um capítulo de um livro de um dos meus profs., o Chico, sobre ética. Fiz um fichamento (meu método de estudo é ler ao menos uma vez, grifar e anotar no texto, fazer um fichamento digitado e, tendo tempo, escrever o que entendi) e segue aí, porque as pessoas costumam se indagar sobre o que é ética, o que é moral e como essas coisas se dão no trabalho. ;)

LIMA, Francisco de Paula Antunes. Ética e Trabalho. In: Psicologia organizacional e do trabalho; teoria, pesquisa e temas correlatos. GOULART, Iris Barbosa (org). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

p. 70

“Enquanto a ética pode ser vista como algo inerente ao processo real da vida em sociedade, a moral aparece mais como uma tentativa ideológica de reconciliação de esferas de vida separadas pela autonomização da economia na era moderna.”

“[...] moral do trabalho como instrumento ideológico de dominação e de controle social [...]”

p. 71

“[...] distinguir entre moral do trabalho e ética no trabalho, como expressão da dupla existência da formação ideal relacionada aos valores, o que nos permite compreender a moral enquanto ideologia de dominação e a ética no trabalho como forma positiva de construção de uma sociabilidade efetivamente humana no interior da própria produção material.”

“Reconhecer a existência de “dimensões éticas” da atividade de trabalho implica, antes de tudo, compreender o trabalho como uma atividade qualitativamente diferente das atividades fisiológicas e cognitivas [...]”

p. 75

“[...] distinguir que valores existem objetivamente no trabalho (ética no trabalho) de sua manipulação ideológica (moral do trabalho) [...]”.

“No interior do ser social assim caracterizado, o sistema ético será o conjunto de valores instituídos pela totalização de atos individuais que se põem em conformidade com os pares categoriais de orientação axiológica: verdadeiro/falso, belo/feio, justo/injusto, eficaz/ineficaz, útil/inútil, agradável/desagradável, todo esse conjunto estando coroado pela distinção moral entre o bem e o mal”.

“Quando recorremos às obras da filosofia moral, nos defrontamos de imediato com um paradoxo: a distinção incessantemente postulada entre esses dois termos [ética e moral] é sistematicamente desmentida pela utilização indiferente de um termo por outro.”

p. 76

“[...] a moral diz respeito aos valores absolutos, enquanto a ética concerne deliberações circunstanciadas e relativamente contingentes.”

p. 76 e 77

“Deve-se dizer ética ou moral? A moral nos lembra a existência do dever e das interdições, ela nos fornece uma doutrina de ação, nos convida a julgarmos a nós mesmos, a nos vigiar e a nos transformar por respeito à regra. Donde a possibilidade do moralismo: atitude que consiste a se especializar em lembrar aos outros seus deveres, de cultivar sutilmente neles o sentimento de culpabilidade, para em definitivo manipulá-los. A ética, ao contrário, remete a uma certa espontaneidade. Sejam hábitos ou modos de um povo, constituídos em uma “segunda natureza”, seja a espontaneidade do próprio indivíduo (os valores que ele põe ao se auto-afirmar), a ética veicula a ideia de nostalgia de uma vida que seria boa e sem problemas, de uma vida que não seria constantemente em conflito com ela mesma, de uma responsabilidade que não excluiria a inocência. Em uma palavra: de uma vida moral sem a moral. Desse ponto de vista, a ética é sobretudo a busca da felicidade, felicidade do indivíduo que escolhe uma existência, felicidade da relação entre os homens, da qual se trata de encontrar a autenticidade (Canivez, 1988).”

p. 77

“[...] a moral assume um caráter prescritivo e normativo; enquanto a ciência dos costumes adota uma postura descritiva. A moral se interessa à universalidade dos valores e normas, enquanto a ética remete à prática social e historicamente situada na qual esses valores e normas são efetivamente postos.”

p. 81

“A ética, conjunto efetivo de valores, normas e regras de convivência social, amálgama das relações intersubjetivas, é normalmente considerada como a força de ligação das relações sociais, que conforma ou orienta do exterior as atividades econômicas. Quando lembrada a respeito dos problemas postos pelo trabalho e pela produção, soa sempre como ideologia e manipulação.”

p. 91

“[...] aspectos particulares do estilo brasileiro de dar um jeitinho (como falar e pedir, implicar emocionalmente o outro com suas histórias pessoais, ser simpático, etc.), o essencial dessa prática social é que o jeitinho só funciona quando não há interesse ou ganho pessoal direto, uso de dinheiro ou corrupção, recurso ao poder ou à força, nem transgressão ilegal das normas, manipulação ou coação ideológica.”

p. 95

“Por que os trabalhadores inventariam novas estratégias para tornar o trabalho mais fácil e mais eficaz?”

p. 103

“Na maior parte das vezes, essas orientações ou ordens são desnecessárias, quer porque os trabalhadores já sabiam como se comportar naquela situação, quer porque são inadequadas. Algumas vezes, dependendo da insistência dos chefes, os operadores fazem o que eles pedem, sabendo que o problema não vai ser resolvido, o que acaba acarretando-lhes uma carga de trabalho maior porque o processo fica mais instável. O mais comum é que os trabalhadores hajam da forma como eles próprios consideram a mais acertada [...]”

p. 108 – definição de trabalho

“[...] o trabalho é, por sua própria natureza, uma prática social, comportando dimensões fisiológicas (é uma atividade que se serve do corpo) e dimensões cognitivas (é uma atividade consciente), mas também dimensões sociais e éticas (é uma atividade que implica pessoalmente o trabalhador e é direcionada a outrem).”

p. 112 – Marx, riqueza

“O que é a riqueza, senão uma situação em que o homem não se reproduz a si mesmo numa forma determinada, limitada, mas sim em sua totalidade, se desvencilhando do passado e se integrando no movimento absoluto do tornar-se? (Marx. Formen. p. 81)”

MARX, K. (Formen). Formações econômicas pré-capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

p. 115

“Temos assim, ao contrário da moral abstrata importada de outras esferas, condições de conceber uma ética que seja intrínseca à própria produção, e que aí funcione como força produtiva efetiva. De modo geral, a ética não aparece como uma esfera superior às outras esferas da vida humana, mas sim uma dimensão que atravessa todas as esferas.”

O paradigma catastrofista: a Reviravolta da Terra + o alerta final de Gaia + tendência do neoxamanismo urbano em 2012

Nesta semana, estive a conversar, beber etc. com o Caio, grande amigo, pela identificação, compartilhamento de ideias e, verdade seja dita, primeiro relacionamento de ambos quando tínhamos uns 15 anos. A vida é muito generosa, mas nós estamos ficando caducos, que já somam 10 anos e quase nada mudamos, rs.

“Seu” Caio Csermak formou em Relações Internacionais e agora faz mestrado em Antropologia, tudo na Universidade de Brasília. Inteligente e bicho-grilo, me inpirou cedo a buscar isso em mim. E conversando, nada disso é importante – temos um encontro sincero, sobre os desassossegos vários, o supermercado das culturas, a simpatia inumana, ausências, faltas, uma certa melancolia, procuras, amores, o invisível, heterodoxia, apócrifos, sincretismo, enteógenos… O que nos aproxima como humanos.

E aí me passou o vídeo de um geólogo holandês catastrofista, Han Kloosterman, que já foi e fez tudo nessa vida, falando sobre a mudança do eixo da Terra. Essa mudança é mencionada por diversas culturas no mundo todo. Inclusive a católica – que não foi mencionada no vídeo, mas que pode ser compreendida pela Terceira Profecia de Fátima.

 

A Reviravolta da Terra – parte 1 from Terêncio Porto on Vimeo.

 

A Reviravolta da Terra – parte 2 from Terêncio Porto on Vimeo.

Eu estou lendo o James Lovelock - outro cientista foda (phD em Medicina nos anos 50, trabalhou na NASA) e outsider de carteirinha.

Lovelock fez vários instrumentos científicos na NASA. Hoje é um cientista que "tocou o foda-se" e fala o que quer: defende a energia nuclear como melhor energia para o mundo, dentre outras cositas polêmicas.

O Lovelock afirma que antes de 2050, o aquecimento global (e todos os vetores a ele relacionados) dão conta de fazer o homem voltar a virar barro. O Kloosterman fala que em 20 anos isso que hoje é tido como “ciência herege” será a corrente principal nas pesquisas científicas. A Terceira Profecia está prometida para a partir de 2005 (bem, já tem uns seis anos que ela está valendo, hein!). E fora aquela história que a massa às vezes diz que foram os maias, outras vezes dizem que foram os astecas, que afirmaram que o mundo acaba em 2012… Aqui em casa tem um calendário asteca, legitimamente mexicano, e seu sol central me olha superior e enigmático… Há números, mas também há muita poesia no cotidiano, enfim.

A mensagem de 2012.

Para quem está mais preocupado com que “tendência” de moda aplicar no desenvolvimento de produtos, eu diria que essa “expectativa do catastrofismo” é o que há. E essa “tendência” não é de modo algum alarmista, de medo. É um estado de espírito sereno, mas extremamente atento pelos indicadores do fim dos tempos. Há uma certa frieza, pois procuramos por números – qual a data do fim? E há também um certo conforto: morreremos todos juntos e há muito tempo sabemos disso. Começa haver um certo equilíbrio entre ciência ortodoxa e heterodoxa, por assim dizer. Busca por conhecimentos milenares, curiosidade pelo que nossos ancestrais tribais pensavam. E há uma necessidade de cura. Há um xamanismo urbano no ar.

A estética do xamanismo norte-americano, que pipocou sutilmente em 2011, dá licença ao neoxamanismo baseado na cultura celta. Ele é extremamente urbano, frio, sereno, sóbrio. Bom seria que nossos designers olhassem para a rica cultura índigena brasileira, que tem aceitado mulheres na pajelança.

Em 2012, a estética indígena continua (em 2011, ela apareceu em uns editoriais de moda em alguns desfiles), mas ela vem menos decorativa (menos franjas, menos penas, menos couros, menos turquesas, menos prataria), ela é mais calculada, geométrica, subversiva, com formas e materiais rígidos, pesados. Vamos pensar em neoxamanismo, tomando o indígena como um vetor para a busca de conhecimento científico. Observação: o indígena não se apresenta como um ideal como no Romantismo. Em 2012, o pajé é o cientista da vez. E atenção: nas culturas indígenas, tem sido cada vez mais aceitas mulheres como pajés – o que antes acontecia muito raramente. A Iracema de 1880 virou pajé em 2012 – ela é a fonte de cura e conhecimento.

A índia acreana Raimunda Putani Yawanawá teria sido a primeira pajé mulher - fato que se deu na mídia em 2006. Mas nós sabemos que há vários outros casos ocorrendo.


Resumindo a ópera: o mundo não vai acabar, a Terra fica mais quente e promete girar ao contrário. Poucos sobrevivem, é verdade. A ética da sustentabilidade volta-se para culturas milenares e para cálculos dos cientistas. Isso reflete em uma estética catastrofista amortizada pelo neoxamanismo urbano – daí a preponderância dessa estética: é um alento no caos. Mas tem muito mais além disso.

Post polêmico: lendo as entrelinhas da rasa reportagem sobre moda sustentável no Jornal Hoje em Dia, da Globo, de 26/12/2011 e questionando a transparência da marca Jefferson Kulig

Profundo como um pires.

A matéria em questão está disponível neste link; há nela um vídeo que deve ser visto para melhor compreensão. Em todo caso, vou postar na íntegra a matéria escrita para fazer algumas considerações no próprio corpo do texto, a fim de enriquecer a discussão sobre a ética e estética da sustentabilidade na moda.

 

O copo está metade cheio e também está metade vazio. Vamos ver!

A matéria segue na cor preta; meus comentários seguem em azul.

Estilistas usam materiais recicláveis na confecção de roupas e acessórios [O termo "materiais recicláveis" vem sendo usado constantemente, caracterizando matérias-primas como sendo ambientalmente sustentáveis. Mas, não passa de mais um termo vazio, como "design arrojado", que nada em si diz, pois quase todos os materiais produzidos industrialmente são possíveis de serem reciclados; é da condição dos materiais serem recicláveis, por uma ou outra tecnologia. No entanto, os materiais nem sempre são reciclados - em destaque, na indústria da moda.]

Lacre da latinha vira vestido de festa e garrafa pet se transforma em tecido. [Ok, vamos ver como isso se dá mais adiante, no texto.]
Outra maneira de reduzir o lixo é reaproveitar o que se tem no armário. [Talvez seja válido explicitar que a principal forma de reduzir o lixo é evitar o consumo, repensar o consumo. Poderia a TV Globo dizer abertamente para seus telespectadores brasileiros para reduzir o consumo de produtos do setor de moda, para evitar comprar produtos de moda, para desacelerar o consumo de moda, o segundo maior setor de divisas do país (que perde apenas para a construção civil), o setor que mais emprega mão-de-obra feminina e tantos outros predicativos portentosos? Lipovetsky (um dos filósofos expoentes da moda), em "A felicidade paradoxal", e Manzini e Vezzoli (autores referentes para a compreensão de design e sustentabilidade), em "O desenvolvimento de produtos sustentáveis" (vide descrição de cenário hiper cultural), falam - há algunS anoS - sobre essa mudança de comportamento da sociedade para pensar seus hábitos de consumo, de modo a reduzi-los, valorizando serviços em relação aos produtos de moda.]

Cheios de brilho, os vestidos de festa não levam nenhum tecido nobre. O lacre da latinha é um dos materiais que o estilista usou para fazer seus vestidos. Para a coleção inteira, ele precisou de 16 mil lacres. Sacos de fruta e lona de construção também estão na lista. O objetivo é fazer roupas ecológicas e bonitas. [O objetivo pode e deve ser fazer roupas bonitas, sempre, e ecológicas - seja no sentido que Gilberto Freyre dá ao termo, de respeitar a ecologia do Brasil, tropicalidade, etc., seja no sentido de sustentabilidade ambiental. Entretanto, as roupas mostradas pela reportagem, com tais materiais reciclados, correspondem a pelo menos três "estéticas" (aqui no sentido de configuração formal/visual do objeto), que são o "Eco Ugly" (descrito pelo portal TrendWatching em 2008), o" Panda-verde-reciclado" (Vezzoli, 2010) e o Trash Fashion (que eu assinalo e que nós podemos observar a pártir do contestatório vestido de papel de 1967 com estampa das latas de sopa Campbell, de Andy Warhol, e nos últimos anos tem merecido desfiles e prêmios para o lixo que é transformado em roupa - quando contrário é tão verdadeiro igualmente, uma bi implicância lógica), as quais não transmitem apelo comercial do produto. Em geral, produtos que apresentam um material considerado "pobre", de baixo apelo visual, como são os lacres das latinhas, e que tem tal material "disfarçado" como nobre por posicioná-lo em uma configuração visual, isto é, em um arranjo da forma (tão "favela", como Frederico Duarte demonstrou em seu brilhante texto citado na íntegra no post anterior a este neste blog, criticando design brasileiro) simplesmente não tem apelo comercial, não são valorizados por lojistas e consumidores. E aqui há um outro problema, que eu considero maior do que essa discussão de estética que pode cair em um achismo infundado de gosto particular: ao reciclar materiais de outros setores, a indústria da moda está validando o consumo dos mesmos. É como se a indústria da moda dissesse: "ei, podem beber refrigerante e jogar as latas fora, porque nós podemos reciclar parte delas", ou "ei, mandem as lonas de construção pra gente que nós damos um jeito de fazer isso um outro produto". O vestido de lacres de alumínio só está aumentando o ciclo de uso deste material - talvez isso não seja positivo, talvez o mais eficiente seria ir direto para a reciclagem de alumínio, que é o setor que mais e melhor recicla seu material, uns dizem 94%, outros 98%, o que é um percentual muito elevado. O vestido com lacres de alumínio acaba, no final das contas, dificultando a reciclagem dos lacres, porque os mistura com outros materiais (linhas, tecido, cola, etc), indo contra o Design para a Desmontagem e o Design para a Sustentabilidade. E que setor recicla os resíduos têxteis da própria indústria da moda? A Alemanha, seguida da Inglaterra, é referência em reciclagem de têxteis; o Brasil está longe. Levando a discussão para o ponto de vista da ética no design proposto por Flusser (dos filófoso mais estudados no Design e na Comunicação Social), a responsabilidade pelo lixo da moda talvez devesse ser da própria moda. Por que os estilistas insistem em caracterizar seus produtos como ecológicos valendo-se do lixo de outros setores e esquecem-se que o seu setor é um dos maiores poluentes do mundo? E grande parte dos resíduos de tecidos são incinerados! Eu posso ficar falando uma Era sobre isso, desenvolvendo esse assunto ad infinitum, mas vamos adiante...]

Estou rendendo o assunto, mas isso não significa "fazer tempestade em copo d'água". As pessoas querem esclarecimento e há quem aprecie informações precisas. A ética da sustentabilidade não pode ser tomada de forma superficial, como mais um componente da sociedade do espetáculo.

Tem também tecido feito de garrafas de refrigerante. As garrafas pet são separadas por cor, picadas e transformadas em uma fibra que parece algodão. O fio de pet pode ser usado na confecção de qualquer tipo de roupa. [Aqui está outro "caroço" deste angu, e o caroço mais brabo, que não passa na minha garganta. Eu realmente não sei porque "cargas d'água" tanto enaltecem o tecido composto por PET reciclado como sendo algo positivo para a moda, as pessoas e o meio ambiente. O tecido de PET reciclado não é adequado, porque:

  1. valida o consumo de refrigerantes (o PET vem principalmente das garrafas), que é um " alimento pouco necessário na alimentação", por assim dizer. Valida o consumo de poliéster, transferindo o problema da reciclagem do setor de polímeros para o setor de têxteis;
  2. o tecido composto por PET, em geral leva algodão não orgânico na composição, isto é, o tal algodão convencional que, como já disse: a união do PET com o algodão tem ainda mais dois problemas: enquanto o algodão é uma fibra natural, que permite a transpiração e facilita a lavagem (porque é bem "poroso" e, logo, água, sabão e suor penetram, entrando e saindo das fibras), o poliéster é rígido, "condensado", sem "poros" (ou seja, dificulta a transpiração, a passagem do suor pela roupa, dificulta a lavagem e, com o tempo, vai amarelando, reagindo com suor, desodorante, sabão, formando umas "placas" embaixo do braço). Agora, o PET tem um lado positivo, fixa melhor a cor que o algodão - mas, ora pois!, o tingimento é principalmente de pigmentos inorgânicos, metais e sais pesados. Então, qual o real valor da sustentabilidade ambiental nesse tecido?
    • ocupa uma área de 3% do globo;
    • consome 25% (uns falam em 23%) de todas as inseticidas consumidas no mundo e cerca de 10% de todas as pesticidas;
    • em torno de 160 gramas de agrotóxicos são usados para confeccionar uma camiseta que possui 250 gramas de algodão;
    • trabalham 40 milhões de pessoas nessas plantações, em péssimas condições, de extrema pobreza e insalubridade;
    • todo ano morrem em torno de 20 mil de pessoas por causa dessas plantações de algodão;
    • a maioria das plantações de algodão normal concentram-se em 22 países em desenvolvimento, como Brasil e Índia;
    • ou seja, a fibra PET está associada a uma fibra infimamente sustentável quanto ao critério ambiental e social;
  3. há uns oito anos, a indústria da moda lançou o jeans com garrafa PET - que ficou famoso pela comercialização da marca Carlos Miele, que costuma investir em jeans diferenciados. Porém, conforme um representante da Tavex (que comprou a Santista), dos principais fornecedores de têxteis do mundo, me contou: esse jeans com PET não vingou no Brasil porque é "quente". Claro. Trata-se de um tecido que tem plástico na composição (PET é um tipo de plástico) e de um país tropical, em que o calor vigora na maior parte do tempo e do território. O raciocínio é semelhante: essa malha com PET é ideal para o inverno. Ao contrário do que afirma a reportagem, o tecido de PET não fica bem para qualquer tipo de roupa (nem qualquer estação), indiscriminadamente.
  4. particularmente, me incomoda ver empresas do porte e esclarcimento como Natura, comercializando produtos de vestuário com a tal da malha Eco PET. Eu mesma, tenho uma camiseta dessa empresa - que só uso dentro de casa, porque o desgin dela me desagrada, mas, enquanto pesquisadora de moda e sustentabilidade, tenho que comprar essas coisas pra testar. Vou deixar a narrativa do teste dessa camiseta para outro post, daí boto foto e tudo o mais, mas afirmo, enquanto consumidora, que é mais um lixo industrial essa camiseta de malha eco pet: esquenta, mancha, desbota e tem um toque adstringente, meio áspero - que só quem está habituado a tangenciar tecidos sabe do que estou falando, é difícil descrever o toque de um tecido, o toque em si, o tato, é mais eficiente para embasar o argumento. Procurem vestir camisetas de malha de PET e tirar suas próprias conclusões...

    Com essa imagem (de MEV, microscopia eletrônica de varredura), dá para ter uma ideia do que estou falando sobre a fibra de algodão e de PET. A figura da esquerda mostra um polietileno puro - o poliéster se assemlha a isso. E a figura da direita mostra um compósito de polietileno com 30% de juta, que é uma fibra natural - o algodão é tipo isso, só que mais cheio de "fiapos", "poros", "irregularidades".

A indústria já encontrou maneiras de transformar o que era lixo em roupa nova, mas o que fazer quando a roupa é que vira lixo? Restos de tecidos podem contaminar o meio ambiente.
Se forem jogados em aterros, demoram até 300 anos para se decompor. [Esses dados estão muito vagos, vamos destrinchar isso. No Brasil, as duas principais fibras têxteis que compõem os tecidos são algodão e poliéster. As condições de decomposição variam, mas em geral, pode-se afirmar que o tecido de algodão leva em torno de 01 a 05 meses para decompor, o poliéster - que é um tipo de polímero/plástico - leva mais de 100 anos, e os polímeros em geral levam até 400 anos. O Inventário Nacional de Resíduos Sólidos, em 2008, demonstrou diversos destinos dos resíduos têxteis. Restos de tecidos, se jogados no meio ambiente, contaminam o mesmo, pois são um material estranho ao mesmo, manufaturado. Recentemente, em 2010, começou a vigorar a Lei nº 12.305, consoante a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que, em uma interpretação livre e simplista, obriga a empresa a se tornar responsável por seus resíduos.]

Uma empresa de Maringá transformou o que poderia ser um problemão em matéria-prima. A fábrica recebe 10 toneladas de retalhos por dia. São sobras das indústrias de confecções e servem para produzir estopa, usada na fabricação de colchonetes e acolchoados. [Essa é apenas uma das soluções para os resíduos sólidos da moda, que são basicamente os seguintes:

  1. Provas de tecidos
  2. Amostras
  3. Produção “off-cortes”, como sobras de infestação (boa parte dos "retalhos" está nesta categoria)
  4. Final de rolos
  5. Ourelas
  6. Tecidos excedentes
  7. Tecidos com defeitos

Na Alemanha, aproximadamente 460.000 toneladas de vestuário/roupas são recolhidas e reutilizadas. O que eles estão fazendo lá? Transformar em estopa e "recheio" de objetos é das soluções mais elementares, "meu caro Watson". O que essa empresa em Maringá faz não é nenhuma novidade, inovação. Há alguma outra relação da empresa com a reportagem?]

Outra maneira de reduzir a quantidade de tecido que vira lixo é comprar menos e reaproveitar o que se tem no armário. A ideia virou tendência na Europa. É o chamado slow fashion. Aos poucos, o movimento tenta conscientizar consumidores e provar que menos pode ser mais. [Tendência??? Prefiro não comentar a semântica desse termo, uns trocariam por comportamento de uma minoria, que vem ganhando visibilidade. Eu prefiro atentar que o slow food surgiu em 1986 (uns dizem 87, outros 89) e, a partir da ideia de comportamento slow, surge o slow fashion - hoje em dia, tem slow pra tudo, slow science, slow sex, etc. No caso do slow fashion, não se trata de um movimento organizado, mas de um comportamento de consumo que recebeu um nome e se desenvolveu enquanto conceito, aplicável para o pensamento da dinâmica da moda, considerando todos os seus stakeholders. Creio que estejam explicando o slow fashion por meio do slow journalism, mas isso é só uma suposição vaga ou uma provocação desnecessária - em todo caso, o intuito seria não perder a piada! hehehe]

“As pessoas estão obcecadas pelo novo. Só sabem colocar o cartão de crédito na máquina para gastar dinheiro”, diz Kate Fletcher, consultora de moda sustentável. Segundo Kate, os preços das roupas nas lojas populares da Grã-Bretanha caíram 25% nos últimos dez anos. Nunca antes foi possível comprar tanto, tão barato. [Muito legal! Conseguiram entrevistar uma das principais pesquisadoras de moda sustentável do mundo, que investiga o assunto há 20 anos! E o que tiram de proveitoso de sua fala? Poxa, a Kate Fletcher tem muito o que dizer de mais relevante sobre o assunto; a citação dela na matéria escrita não é nada de mais, só reitera o senso comum. Já no vídeo, foi melhor aproveitada, embora as considerações de slow fashion tenha sido deveras resumidas. Que façam mais entrevistas com ela!! Particularmente, depois dos integrantes do Pink Floyd, a Kate Fletcher é a figura pública que eu mais admiro - mas isso não vem ao caso, só estou tratando o assunto com a leveza com que o mesmo trata seu receptor.]

Além de pregar um equilíbrio maior no consumo, o slow fashion defende marcas éticas e propõe algumas mudanças de hábito, como ir às compras em brechós, trocar peças com os amigos e alugar bolsas de luxo, ao invés de comprar. [Sim! Há diversos tipos de serviços - e a Itália (vide Milão) tem demonstrado isso bem - de moda voltados para a sustentabilidade. Aliás, o slow fashion é um conceito que baseia-se no de slow food, que surgiu na Itália.]

No Brasil, o estilista Jefferson Kulig aposta na moda sem exageros. Ele diz que o guarda-roupa deve ter mais peças clássicas duráveis e menos espaço para tendências passageiras. [Tenho uma simpatia particular pelo estilista Jefferson Kulig: durante meses, este meu blog apresentou no layout um banner direcionando para a e-shop de Jefferson Kulig. Cheguei a fazer comentários sempre muito positivos sobre as roupas (materiais, configuração, estilo) de Jefferson. Mas nos últimos três meses, algumas situações me fizeram repensar a questão da ética da marca. Faz tempo que estou para citar os fatos e acho que agora é oportuno, e eu vou me limitar a apenas duas (porque essa marca me deu canseira com as evasivas)que ressaltam a questão da transparência da mesma. Vamos lá:

Até meados de 2011, este blog ofereceia um desconto de 30% - que depois passou a ser de 15% - nas roupas da e-shop do Jefferson Kulig, aos leitores do blog, por meio de um código (MDTC) localizado em post específico, o qual deveria ser inserido no ato da compra virtual, como um código de cupom promocional. Em contrapartida, eu receberia 10% do valor devidamente depositado na minha conta corrente em banco. Sinceramente, nunca conferi  se isso funcionou, se caiu algum dinheiro na minha conta. Além disso, foi concedido ao administrador do blog (no caso, eu) descontos de 50% em até duas peças de roupa por mês adquiridas na e-shop. Eu nunca comprei nenhuma roupa do Jefferson Kulig.

Um dia (19/10/2011), depois do próprio Depto de MKT ter comunicado o fim da parceria dos blogs com a marca, qual não foi minha surpresa ao receber um e-mail da mesma, citado na íntegra:

A marca  Jefferson Kulig, estabelecida no mercado  brasileiro desde 1992 e presente no line-up do SPFW desde 2002, inaugurou em 2009 sua loja virtual - o E-Shop JEFFERSON KULIG.   No ano seguinte realizou parcerias com blogueiras(os) de todo o Brasil, proporcionando benefícios para ambas as partes.  Devido a um redirecionamento do e-commerce e mudança de estratégia, foi dada uma pausa na parceria, agora retomada em um novo formato.

Atualmente comercializamos a linha de Camisetas Premium Jeffer.son, estampadas com tecnologia digital, reproduzindo com qualidade e design único, em um processo que  respeita o meio ambiente.  O processo é mais sustentável, pois elimina a necessidade de desenvolvimento de fotolito, matriz serigráfica e a preparação das cores, diminuindo consideravelmente o uso de matérias e energia.

O blog parceiro deverá disponibilizar um espaço para um banner promocional (o mesmo banner que teremos no blog oficial da marca) com link para nosso e-shop, que será trocado periodicamente de acordo com as ações promovidas, e em contrapartida a isso o blog terá desconto de 20% em nosso e-shop, exclusivo para o proprietário do blog, que poderá participar de ações em eventos virtuais e físicos (SPFW entre outros) e receberá informações sobre moda e noticias da marca em primeira mão, como os sites abaixo recebem:

http://msn.lilianpacce.com.br/home/jeffer-son-jefferson-kulig-camisetas/http://ffw.com.br/noticias/designer-brasileiro-lanca-linha-de-camisetas-premium-a-precos-acessiveis/http://elle.abril.com.br/blogs/elle-news/tag/camisetas-jefferson-kulig/http://colunas.criativa.globo.com/bicharada/2011/09/27/jefferson-kulig-lanca-linha-premium-de-camisetas-com-estampas-de-animais/http://modaspot.abril.com.br/news/jefferson-kulig-lanca-linha-de-camisetas-femininashttp://blooming.plex.com.br/2011/08/26/jefferson-kulig-lanca-marca-de-camisetas-premium/

Para aderir a esta parceria com a JEFFERSON KULIG, responda ao cadastro abaixo e envie para o e-mail radar@jeffersonkulig.com.br. Sendo aprovado, receberá seu código de cupom de desconto juntamente com banners em vários formatos para ver qual condiz mais com seu blog.

A seguir, a resposta que eu lhes dei em 26/10/2011:

Cara Sonia ou outrem, bom dia,

a nova proposta de parceria é bem inferior a anterior que era mantida, pois não oferece vantagem alguma aos leitores do blog. Quanto ao proprietário do blog, somente é vantajoso por vincular a imagem de uma marca (que eu, até então, julgo de respeito) ao próprio blog - não considero vantagem desconto de 20% em bem consumível.

Sendo assim, caso realmente se estabeleça parceria, ao menos enviem a imagem do banner mais o seu respectivo código em HTML, necessário para a plataforma de hospedagem em WordPress. Na parceria anterior, a pessoa do MKT JK responsável por essa questão havia ela mesma inserido o banner em meu blog, tendo hospedado a imagem em um site, mas depois - sabe-se lá porque - tirou a imagem que estava hospedada / "desospedou", excluindo o código HTML respectivo. Eu havia entrado em contato pedindo m novo banner com código, mas na época a resposta foi que estavam reformulando a proposta de MKT, coisa que inclusive disseram pessoalmente quando estive no Minas Trend Preview do semestre passado.

O argumento de que a roupa é sustentável, somente frisando o processo de estamparia digital, é raso. É necessário saber qual a composição da matéria-prima usada e como é o processo produtivo e de distribuição (como são reduzidos os seus impactos no meio ambiente). Se não, a roupa não é sustentável, somente a estamparia causa menor impacto ambiental comparando-a com outros processos de estamparia. Sei que algumas (ou seriam todas?) imagens estampadas são de Andrew Zuckerman. Já que não se tratam de imagens desenvolvidas pelo Depto de Estilo/Design JK, por que não divulgar o autor das imagens? http://www.andrewzuckerman.com/site.html#?dr=0

Acho que falta um pouco mais de cuidado com essa proposta de parceria, afinal se trata de uma marca séria, não é mesmo?

Abs,

Luciana Duarte

No mesmo dia, me responderam o seguinte:

Cara Luciana,

Entendemos seu posicionamento.

Iremos estudar as questões levantadas. 

Obrigado pela atenção.

Equipe Jefferson Kulig.

Já há exatamente dois meses, não recebi nenhum comunicado da marca, seja defendendo a sustentabilidade dos produtos, seja defendendo a suposta parceria com o talentoso fotógrafo Andrew Zuckerman. Coincidentemente, "meu caro Watson", parafraseando novamente Sherlock Holmes, desde este ocorrido, tenho verificado que as camisetas que são lançadas não tem mais imagens do talentoso e famoso fotógrafo - mas estou tomando muito cuidado para não supor nada, nem inferir nada, pois não detenho dados objetivos, apenas coincidências e omissões da marca.

Ei, Jefferson, responda minha pergunta:

Já que não se tratam de imagens desenvolvidas pelo Depto de Estilo/Design JK, por que não divulgar o autor das imagens?

Fotos de Andrew Zuckerman estampam roupas de Jefferson Kulig. Os direitos autorais não são mencionados pelo Depto de MKT.

Printscreen do site de Andrew Zuckerman, que tem video com gente como Ozzy Osbourne, Lenny Kravtz, Ravi Shankar e Philip Glass falando no site sobre música. Fora as fotos maravilhosas de aves.

No site da e-shop da marca, não consta nenhuma referência aos direitos autorais do fotógrafo. Vide:

“Sua busca não encontrou resultados”. Andrew Zuckerman, famoso fotógrafo, cujas algumas imagens estampam as camisetas de Jefferson Kulig, não é citado no site. Tampouco a empresa se pronunciou confirmando a parceria. Meu namorado deu esse printscreen no dia 27/10/2011 – e desde então eu estou guardando o assunto para o blog. O namorado, que é pós-graduado em marketing, ainda me orientou: “Esse projeto deles de mkt quer espalhar a marca deles no maior numero de blogs possível, mas os de peso, que discutem o tema com seriedade e ética de verdade, tem um publico qualificado segmentado como você, eles TEM que oferecer algo melhor que esse desconto. Aposto que se chegar na loja e falar q paga a vista duas peças eles dao 20%. Seu publico é no alvo em quem eles querem atingir e vc ia dar de graça pra eles.”

Meu caro leitor,

olho aberto!!! ;)

No mais, por que o jornal não trouxe a pauta do slow fashion antes do Natal, hein? O compromisso da mídia parece ser com a indústria; no dia seguinte é com o consumidor.

E o Jefferson Kulig? Não compreendo esse direcionamento de MKT deles.

Ética e estética da sensualidade

Uma das imagens de um trabalho que to fazendo. A engenharia e a química me chamam nesta semana: prova, relatório, artigo, apresentação de trabalho, relação de fornecedores... O bicho tá pegando!

Bom, o dever me obriga a ficar ausente até quinta neste blog: tenho uma porção de coisas pra fazer.

Enquanto isso, vou deixar aqui uma questão para refletir, que é a da sensualidade por meio das roupas.

Body da Osklen: mangas compridas + transparência nos seios. Jogo do esconde (braços) e mostra (seios). Aqui a sensualidade flerta com o vulgar. Mas isso é só uma imagem de campanha de moda, não uma proposição de uso nas ruas.

Duas das oito funções da moda são:

  1. indecência (atração sexual): realçar os atrativos sexuais e a disponibilidade de quem as usa;
  2. ornamentação: enriquecer os atrativos físicos, afirmar a criatividade e individualidade, sinalizar uma associação ou posição dentro de um grupo ou cultura.

Eu penso que a sensualidade consiste em revelar parte do mistério. Revelando-o todo, cai na vulgaridade (julgamento de valor para o erotismo) e na conotação pornográfica (quando o mistério é escrachado).

Nesta campanha de 2009 da Osklen, o olhar é conduzido para o tórax iluminado do rapaz, seguido para o volume de pregas ou outro motivo das calças amplas, quase saia. A frente dele, refletindo no vidro, uma mulher com longo vestido está sentada numa cama, observando-o. Conceito: sensualidade natural e despretensiosa.

A Osklen trabalha muito bem a questão da sensualidade nas roupas:

  • no feminino: costas de fora, fendas, transparência. Nunca há um decotão, uma minissaia ou barriga de fora. A relação com o sexo, com a consciência de ser mulher, é madura.
  • no masculino: calças amplas, quase saias, decotes do tipo canoa (que mostra mais ombro que peito), tecidos fluidos, cujo caimento revela as formas do corpo. O homem da Osklen é um cara seguro da sua masculinidade e, que, logo, pode usar peças consideradas femininas.

    Saia masculina da Osklen. Confesso: o único fetiche que tenho é homem de saia longa. Porque denota uma super segurança na própria masculinidade, ou seja, maturidade sexual + consciência de si mesmo e do próprio corpo. Um cara de saia pode tudo, até usar DUAS regatas!

 

Pergunta: é ético se apropriar das roupas para demonstrar uma estética que não corresponde a uma ética pessoal?

Da forma como a pergunta está, a resposta seria não.

Mas, tratando da moda como a compreendemos hoje, a resposta seria sim. Pois a moda é um veículo que permite o teatro das aparências, em que o superficial é tomado como real.

Amanhã, vou mostrar para o pessoal da engenharia que toda ética corresponde a uma estética e vice-versa (o que é um pensamento socrático, referente a kalokagathía, uma convergência da ética e da estética). Mas, eu tenho cada vez mais pensado – e tenho lido muito para poder pensar também – que não, nem sempre:

a ética sempre corresponde a uma estética, mas nem sempre a estética corresponde a uma ética.

Às vezes, um cara de saia é só uma imagem de macheza, a qual implica no fetiche da saia como mercadoria e no entendimento do homem-objeto. Além da saia, existe um ser humano, com outras tantas características, com gostos, gestos, sonhos, vontades, interesses, estudos, viagens, cultura. Ou seja, a roupa não representa toda a essência de um homem. A não ser no caso dos que são superficiais, aí sim.

Lagoa Santa + James Dean + carteira mágica

Lagoa Santa - MG

Ontem conheci pessoalmente um cara que tinha me chamado para um projeto em Lagoa Santa/MG, o Bruno. Em breve, vou começar a  escrever sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade para o portal que ele está criando sobre Lagoa Santa, um projeto muito interessante. A conversa, que era pra durar uns 15 minutinhos, foi pra mais de duas horas – e isso que foi bem objetiva. Haja assunto!

Lagoa Santa é uma cidade cheia de riqueza – ex., tem os mais antigos registros paleontológicos das Américas. No ano passado, comecei um projeto lá, de design e artesanato. Veja mais em outros posts:

Crânio de Luzia, encontrada em Lagoa Santa e considerada o fóssil humano mais antigo das Américas, com 11.500 anos

Eu não vejo a hora de começar a fazer turismo para vivenciar toda cultura e natureza local. E aí sim poder escrever.

Cachoeira Serra Morena, Lagoa Santa-MG

Bom, eu sou obrigada a falar do Bruno  não por sua conduta ética – transparente e aberto, tirou todas as dúvidas que eu tinha – mas por causa da sua estética James Dean. Claro que eu fui reparar na roupa do rapaz né! Um dos meus orientadores na Engenharia, que costuma aparecer discretamente vestido de Lacoste, D&G, Gucci, Diesel, fica pegando no meu pé que eu reparo na roupa dele. Acho isso horrível, mas não consigo evitar: uma vez que vc. trabalha como estilista, seu olhar é atraído para as roupas, o estilo, a imagem da pessoa. Pois bem, eu falava das roupas do rapaz.

Ele usava exatamente o look abaixo (sem o cigarro, detalhe fundamental):

James Dean, seu estilo dos anos 1950 dura até hoje na moda masculina.

Tudo no estilo casual, clássico e no que se convencionou chamar de elegância despojada. Não precisa mais que isso para um cara estar bem vestido. Detalhe: é um estilo que se iniciou nos anos 1950 e nunca mais saiu de moda. E por que?

Nem sempre uma estética corresponde a uma ética. Jimmy: rebelde sem causa. Bruno: sensato com causa. E ambos com a mesma roupa.

James Dean é considerado ícone de rebeldia, de juventude, da liberdade, etc. Um estilo que dura mais de meio século pertence ao que chamamos de slow fashion, de estilo atemporal.
JamesDean.com

Ao final do encontro, ele tirou a carteira e aí – tcharans! Era exatamente a carteira que eu queria comprar, mas havia desistido de tanto que a vendedora frisou ser um objeto masculino.

"Carteira mágica" ou "carteira que abre e fecha".

Vamos relembrar uma coisa: homens não usam bolsa, não carregam necessaire, logo, o objeto mais íntimo que carregam consigo é somente a carteira. Pois é né. Mas isso não me impediu de dar o furo: ao ver que era a carteira que eu queria, exclamei ah, você tem essa carteira!, tomei-a das mãos do rapaz (o qual eu nunca havia encontrado antes na vida) e comecei a abrir e fechar!!! ahahaha Aiiiii!!! Quando me dei conta, nossa, desculpa, já tinha feito bobagem! Até agora não to acreditando que eu fiz isso…

Próxima carteira masculina que vou ter. A atual foi herdada do meu pai - e até hoje não achei carteira feminina melhor: simples, pequena, prática e de couro legítimo. Carteira feminina tem muito frufru e complicação.