A “qualidade” de uma calça barata

Em geral, se a roupa é barata, ela se vale de diversos recursos (como ilustrados acima) que reduzem sua vida útil. Muitas vezes, isso quer dizer que a roupa tem pouca “qualidade” (aqui entendida como um acabamento primoroso e que remete a um produto duradouro). Eu de fato me posiciono contra produtos de lojas de departamento, como Riachuelo, Renner, C&A, Marisa, etc.

Croqui da Osklen para a Riachuelo.

Croqui da Osklen para a Riachuelo.

Eu certa vez (final de 2010) comprei uma calça criada pela Osklen para a Riachuelo. A modelagem não estava acertada, a calça encolheu após ser lavada, rasgou no entrepernas e nos ilhóses largos. Não prestava mesmo. O que tinha de Osklen? A cintura alta, o cós largo, o gancho baixo. E custou em torno de 80 reais.  Dinheiro no lixo.

A tal da calça "imprestável" da Osklen para Riachuelo.

A tal da calça "imprestável" da Osklen para Riachuelo.

O que vemos nessas “grandes marcas de moda” ao atenderem às “grandes lojas/magazines de moda” com coleções cápsula é que: mantém-se os elementos-chave de estilo da marca, mas se usa os piores tecidos possíveis e costura-se da forma mais econômica e rápida, além das roupas serem mal infestados (ou seja, vão ficando tortas conforme se lava), do tingimento não ser o melhor, de não fazerem teste de encolhimento, etc. Aff!

Eco Lanvin in Meryl Streep

Até o momento, o único vestido ecologicamente correto usado no Oscar, foi o Lanvin de Mery Streep. A notícia saiu na Vogue Britânica e no Ecouterre.

De acordo com com Livia Firth,

The gown is gold, full-length and made from eco-certified fabric sourced with help from the GCC.

O ator Kenneth Branagh (My Week With Marilyn) usou um terno com lã de Merino (um tipo de ovelha que produz umas das lãs mais sofisticadas e macias), de Emernegildo Zegna.

Livro: Moda e modernidade na belle epoque carioca

No final do 2011, um dos presentes de aniversário que ganhei do namorado foi o livro “Moda e modernidade na belle epoque carioca”, da Rosane Feijão. Pra variar, fiz um fichamento e segue aqui.

Livro: Moda e modernidade na belle epoque carioca

Autora: Rosane Feijão

Editora: Estação das Letras e Cores

Sinopse: Na primeira década do século XX, uma grande reforma urbana pretendeu modernizar o Rio de Janeiro tomando Paris como modelo. Civilização e modernidade eram ideias que, naquele momento, guiavam tanto as transformações de vestuário como as mudanças no espaço físico da cidade. Tais conceitos eram veiculados pela imprensa escrita não apenas em grandes editoriais, mas também em artigos sobre moda, colunas sociais e anúncios publicitários. A obra busca mostrar que a cidade passou a exibir um estilo de vida que, mesmo influenciada por padrões europeus, já podia ser considerado como tipicamente carioca.

Bela blusa de linho (tecido eco-correto) da Farm Rio. Estilo carioca contemporâneo.

Fichamento para pensarmos em moda ética

Sobre a origem da moda, p. 41 e 42

“Por sua vez, a burguesia européia, desde a Revolução Francesa havia se empenhado em buscar modelos de prestígio, ora copiando procedimentos do Antigo Regime, adotando peças ou formas que colocavam em evidência seu distanciamento braçal, ora forjando suas próprias estratégias de distinção. Tais estratégias incluíam uma espécie de ideologia moral do bom gosto, do bom-tom, da decência, da respeitabilidade e do controle próprio, impossíveis de serem alcançados apenas pelo poder de compra. Para ter distinção não bastava ser bem-nascido ou muito rico: era preciso ter sutileza e discernimento, ser portador de certo savoir-vivre, conhecer os bons costumes, os segredos do bem-vestir e o universo infinito de suas nuances (PERROT, 1981).”

Farm Rio Alto Verão 2011. Apesar de referenciar o estilo carioca, a Farm é uma das marcas que mais atende (= vende bem, "dimais" em Belo Horizonte) ao gosto da mineira. A fonte dessa informação é uma pessoa relacionada às vendas do Pátio Savassi (daqui a pouco vamos eu o boyfriend lá pegar um cinema). O que tem demais? Detalhes bem delicados, feminilidade doce, uma pegada inocente e sexy. Em geral, pode-se dizer que a consumidora mineira gosta de se "enfeitar" - e a Farm atende bem essa demanda.

p. 45 e 46         

Segundo Gilberto Freyre (1987, p. 130),

um Brasil colônia que vinha absorvendo não poucos orientalismos, inclusive quanto aos usos das cores vivas nos trajos tanto de homens como de mulheres elegantes, essa absorção, por parte das mulheres, parecendo ter-se estendido a penteados e adornos de um modo que resistiria, em não poucos casos, à referida europeização.

É preciso lembrar que até então duas vertentes estavam embutidas nas formas de vestir aqui no Brasil: a européia e a oriental, já que provinham em grande parte de “um Portugal metrópole, ele próprio um tanto oriental no seu modo singular de não ser de todo europeu” (Idem, p. 130).”

A Cantão (cuja pegada étnica faz mais o meu gosto pessoal) também trabalha o estilo carioca e, no entanto, a loja do shopping Pátio Savassi fechou. Campanha Cantão verão 2012.

A roupa passando de uma classe para outra, de acordo com Edgar Allan Poe, em 1840, p. 84

“Ele conta, por exemplo, que enquanto “os pequenos escreventes de casas baratas (…) usavam os restos da classe alta”, ou seja, aquilo “que havia sido a perfeição do bom ton uns doze ou dezoito meses antes” (…).”

 Sobre moda masculina e Londres, p. 87 e 88

“(…) Londres, principal centro difusor da moda masculina.

Desde o fim do século XVIII Londres havia se tornado referência de comportamento masculino e, consequentemente, de vestuário masculino para toda a Europa até mesmo a França, acostumada a exportar moda e modismos, acabou por se render à chamada anglomania, termo propagado a partir da década de 1760, cuja característica principal, a simplicidade no vestir, foi adotada pelas classes dominantes de forma antes jamais vista.

Após um período de influência tanto sobre trajes femininos como masculinos nas décadas imediatamente anteriores à Revolução Francesa, a Inglaterra continuou a ser referência para esses últimos durante pelo menos todo o século XIX e começo do XX, difundindo uma simplicidade sofisticada, estudada, composta de “pequenos nadas” que faziam toda a diferença. A expressão usada por Lipovetsky (1989, p. 32) coloca em evidência a função distintiva das sutilezas na composição da aparência:

Torrentes de “pequenos nada” e pequenas diferenças que fazem toda a moda, que desclassificam ou classificam imediatamente a pessoa que os adota ou que deles se mantém afastada, que tornam imediatamente obsoleto aquilo que os precede. Com a moda, começa o poder social dos signos ínfimos, o espantoso dispositivo de distinção social conferido ao porte das novidades sutis.”

Moda masculina do século XIX

p. 91

“Chenoune faz um paralelo entre os tipos de vestimenta masculina de franceses e ingleses e os tipos de jardins desenvolvidos em cada uma dessas culturas afirma que “a rigorosa geometria clássica dos jardins à francesa” domesticava a natureza, enquanto a “charmosa desordem pré-romântica dos parques ingleses” causava a impressão de deixar a natureza seguir seu livre curso. Com isso ele sugere as divergências políticas dos dois países antes da Revolução Francesa – época em que a Inglaterra já contava com um parlamento forte, enquanto a França ainda vivia sob o Absolutismo.”

Moda masculina século XX.

p. 92, 93 e 94

J. C Flügel acreditava que os homens teriam passado a procurar mais a praticidade e a “correção” do que a beleza ao elaborarem sua aparência. Em seu livro The Psicology of clothes (1930) o psicanalista inglês denominou essa opção de “a grande renúncia masculina”:

[...] os homens abriram mão de seu direito às formas mais claras, alegres, elaboradas e mais variadas de ornamentação, deixando-as inteiramente para as mulheres, tornando assim seu próprio vestuário a mais austera e ascética das artes. Em termos de moda, esse acontecimento certamente deve ser considerado “A Grande Renúncia Masculina”.

Flügel se referia à mudança drástica que se efetuou no vestuário masculino após a Revolução Industrial, quando os homens da aristocracia substituíram os trajes ricamente ornados e coloridos, típicos da vida de corte, por outros, mais sóbrios e austeros, de preferência escuros. A renúncia a que faz alusão é a fantasia no vestir, afastando os homens de um mundo considerado superficial e fútil, tornado, a partir de então, domínio exclusivamente feminino

E aqui também, moda masculina do século XX.

É sem dúvida uma concepção que reflete uma nova cultura masculina, fundada por homens que construíram sua posição na sociedade não mais por meio da hereditariedade de títulos de nobreza, mas em função de talento, competência e trabalho:

O traje masculino neutro, escuro, austero, traduziu a consagração da ideologia igualitária como ética conquistadora da poupança, do mérito, do trabalho das classes burguesas o vestuário precioso da aristocracia, signo de festa e do fausto, foi substituído por um traje que exprime as novas legitimidades sociais: a igualdade, a economia, o esforço. Espoliação dos homens do brilho dos artifícios em benefício das mulheres, estas sim destinadas a dar continuidade aos símbolos de luxo, de sedução, de frivolidade (LIPOVETSKY, 1989, p 91).”

p. 96, Machado de Assis em “O capítulo dos chapéus”

“E conclui: “(…) pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem, mas o homem do chapéu”. (ASSIS, 19997, p. 403).

p. 100

“Simmel (1987, p. 16) denomina tal comportamento de “atitude blasé”, uma forma de “reserva” que a vida metropolitana tornou necessária:

o aspecto interior dessa reserva exterior é não apenas a indiferença, mas, mais frequentemente do que nos damos conta, é uma leve aversão, uma estranheza e repulsão mútuas, que redundarão em ódio e luta no momento de um contato mais próximo, ainda que este tenha sido provocado.”

Sobre um rico-rico, blasè, non-chalant, a elegância desinteressada no status, que a Osklen transmite no estilo, p 104

“A possibilidade de se diplomar em Medicina, a ida a um evento elegante e o traje muito bem cortado caracterizam a personagem em questão como membro da elite, cuja distinção era garantida não apenas pelo luxo com que se vestia, mas pela atualização impecável com a moda, aí incluídas a postura descontraída e a bem dosada ousadia.”

Terno de moleton da Osklen, marca que também trabalha o estilo carioca (ou como eles preferem dizer, o estilo de Ipanema, boêmio, nonchalant, chique, cool).

Sobre o terno do malandro, p. 106

“A polêmica sobre a substituição da sobrecasaca preta pelo paletó branco está diretamente relacionada com o papel do homem nas sociedades modernas e com o padrão europeu na constituição das aparências burguesas. Na Europa, desde a década de 1890 os ternos brancos ou muito claros, de tecidos leves como o linho e a flanela, eram usados exclusivamente nas férias de verão, nas praias e estações termais, acompanhados de chapéu palheta ou canotier. Como não era uma roupa com a qual se ia ao trabalho, talvez por isso tenha ficado associada, mais tarde, ao malandro carioca, que Schwarcz (1994, p. 12) descreve como ligado “à falta de trabalho, à vagabundagem e à criminalidade potencial”.”

Professor Carlinhos de Jesus: o paletó branco do malandro e o chapéu de sambar.

p. 114

“Outra influência partiu das artes aplicadas. Pode-se perceber uma relação clara entre a silhueta feminina e o estilo art nouveau por volta de 1900.”

Ilustração, Vogue, Art Nouveau.

p. 116

“Desde meados do século XIX os jornais haviam instaurado um caloroso debate acerca dos prejuízos à saúde causados pela moda. Havia preocupações de fundo moral e higiênico que causaram grandes polêmicas, principalmente em relação ao uso do espartilho, responsabilizado por causar verdadeiras tragédias a muitas famílias alguns manuais de etiqueta e civilidade chegavam a apresentar dados relativos às mortes causadas por ele de forma a sensibilizar o público quanto à nocividade de seu uso (RAINHO, 2002)

Mas não eram apenas os espartilhos a torturar o corpo. As botinhas fechadas de bico fino com cadarço, muito estreitas e com saltos comprimiam fortemente os pés daquelas que almejavam elegância.”

p. 127

“[...] o bronzeamento exprimirá no século XX exatamente o que a ‘pele de leite’ exprime no século XIX: a ociosidade, ou seja, a capacidade econômica de dilapidar tempo ‘sem fazer nada’ e a ostentação dessa improdutividade gratificante”.

Helô Pinheiro (mãe da Ticiane Pinheiro, casada com Roberto Justus, do Aprendiz, etc.), a legítima garota de Ipanema de Tom Jobim. Bronzeado destacado por um blazer branco. Pra quem tá na dúvida, fique sabendo que é ela mesma a famosa musa de "Garota de Ipanema", música-ícone de nossa Bossa Nova..

p. 143

“É possível tornar-se rico, mas para ser elegante é preciso nascer elegante”.

Croqui Lenny verão 2012.

p. 153

“O gosto pelos esportes favoreceu uma grande mudança nos padrões de beleza naquele início de século. Para os rapazes, o tipo franzino e pálido do período romântico, que Luiz Edmundo (1957, p. 831) descreve como “uma geração de fracos e enfezados, de lânguidos e de raquíticos”, já não agradava mais tanto quanto os que ostentavam seus músculos nas competições esportivas, vestidos com roupas leves e curtas, coladas ao corpo. Para as mulheres, as faces coradas transmitindo a ideia de saúde substituíram os tons macilentos e até esverdeados cultivados durante o século XIX. O corpo se tornou mais dinâmico, e a moda feminina acompanhava essas transformações, abandonando as estruturas pesadas e constritoras que haviam moldado a silhueta nos últimos cinqüenta anos. O movimento e a respiração, até então limitados pelo uso do espartilho, foram incentivados e desenvolvidos pelas normas higienistas que tornaram a educação física obrigatória nas escolas.”

Lenny verão 2012 - convite para gringo ver a moda carioca e brasileira.

p. 158

“A mesma lógica foi seguida para o uso do espartilho como era impensável uma mulher apresentar-se em público sem essa peça moldando-lhe a cintura, modelos especiais para o banho foram fabricados durante a primeira década do século XX. Após a Primeira Guerra, na década de 1920, boa parte de tudo isso já tinha sido abandonado: maiôs inteiros e colantes passaram a ser vestidos diretamente sobre a pele, e as toucas, embora continuassem a ser usadas, tinham uma função mais ligada à estética que à moral.”

Vinicius de Moraes e Helô Pinheiro, The Girl from Ipanema.

p. 165

“A carioca tem no vestiário a sua roupa de banho. A carioca adestrou-se a caminha na areia com a mesma airosa elegância com que caminha no asfalto. A vida da praia está exercendo sobre ela uma influência que se faz sentir nas suas ideias e nos seus sentimentos, na sua compleição física e até moral. A praia, desviando para o convívio da natureza a população da cidade, a está poderosamente vitalizando e insulflando-lhe alegria.” *

*Citado por Cláudia Braga Gaspar (2004, p. 50).

 

A moda do namorado – parte 01

Faz tempo que queria escrever sobre ele. Mas depois de ver a foto abaixo dando sopa no Facebook, conclui que a missão não pode mais ser postergada:

De trajes de ciclista, falando, para homens de terno, sobre lei de inciativa popular em prol de ciclovias em Lagoa Santa. (Me mata de orgulho te ver assim: ecológico, a favor do bem, auto-confiante).

Acho que encontrei o homem da minha vida, a julgar somente pelos conceitos de moda implícitos em seu estilo:

  • pelo que contabilizei (perdoe a indiscrição), 04 calçados, 02 calças jeans, 06 camisetas (sendo que uma delas, preta polo, e outra branca com gola V, só faltam falar), 02 camisas sociais, 02 bermudas esportivas, 04 blusas de frio (uma herdada do avô e duas do pai), 01 jaqueta. Um guarda-roupa enxuto, básico, de qualidade, em que tudo se combina e é atual e atemporal. Ele praticamente não consome roupa (yes!). Slow fashion absoluto. Zero de consumo de moda e porque não quer mesmo, não que não possa.

Não achei imagem do guarda-roupa do Cebolinha, então vai o da Mônica para ilustrar o que eu imagino ser o guarda-roupa do Bruno: um tanto de camisetas pretas iguaizinhas e a dúvida cruel sobre qual escolher!

  • o que ele não sabe (mas agora vai saber), é que toda vez que uma blusa dele dá mole sob os meus cuidados, eu a viro do avesso: olho etiqueta de composição e marca. Depois desviro, analiso corte e modelagem. Quando ele a usa, vejo o caimento. Como ele é alto (1,87 m), as camisetas ficam um pouco curtas – ideal que fossem três dedos mais compridas (na foto acima dá pra perceber). Mas isso não é problema dele: é problema da falta de padronização de modelagem em nosso país, do fato da maioria da moda masculina ser pensada no homem-médio de 1,70 m. A moda é ingrata para os mais altos, os mais baixos, os mais gordos, os deficientes – e assim, sutilmente, nos nivela em um padrão de beleza médio, nos massifica em um biotipo forçadamente adaptado. Se eu fosse ele, sabotava mesmo a moda, não comprava mais camiseta curta, não seria condescendente com um padrão de modelagem que não me respeita. Na falta de camisetas, as camisas até que disfarçam o erro grosseiro da modelagem masculina brasileira.

Apesar dele não usar muitas cores além do branco, preto e jeans, entende tudo de cores. Uma de suas últimas fotos (tem por hobby capturar a imagem de aves em plena liberdade), de cores harmoniosas.

  • ciclista (às vezes, pedala de Lagoa Santa a Belo Horizonte para me ver, o que muito me agrada), usa alguns tecidos tecnológicos que permitem melhor transpiração e tem um contato suave com a pele. Geralmente, tem poliamida na composição. Se nós formos observar (na verdade, eu fui entrevistar um engenheiro têxtil sobre isso), a moda brasileira oferece basicamente tecidos de algodão e de poliéster, porque são baratos e populares, além de extremamente poluentes (pois é, o algodão não-orgânico é ainda pior que o poliéster). A tecnologia na área da moda está direcionada a nichos específicos, como uniformes e esportes, que demandam performance por meio da roupa. Logo, como a principal finalidade na moda do dia-a-dia é decência (cobrir nudez), indecência (atração sexual) e/ou ornamentação, a tecnologia não soma valor para o fast fashion. E é por isso também que a gente é inundado de ofertas de roupas de tecidos de pouca qualidade (baratos!) e um tanto de firulas ornamentais (a tal da modinha) para tornar as roupas comercializáveis e altamente lucrativas.

Pra quem não conhece, aí está a famosa bermuda coladinha de AXL Rose. Mas eu não aconselharia a versão branca, por diversos motivos que competem aos rapazes uma explicação pormenorizada.

 

Já a saia masculina (aí o AXL de novo) é altamente recomendável e como sou a favor dos homens usarem saia, aí vai a explicação: 1) é absolutamente sexy, denota excessiva masculinidade por estar seguro usando uma peça tradicionalmente feminina; 2) ventila e mantém temperatura ideal para testículos a favor da fertilidade; 3) acomoda bem qualquer tipo de cueca; 4) disfarça melhor em caso de ereção que não pode ser demonstrada; 5) prefira o modelo escocês, o comprimento necessariamente abaixo ou no joelho, não deve chegar no meio da panturrilha e também não precisa ser tartan (nome dado ao xadrez escocês); 6) use-a com calçados de cano médio, de preferência coturnos porque aí, rapazes, vocês vão sentir que usar salto de 2 a 4 cm é extremamente confortável e recomendável, não vão querer vestir mais nada além de saia e calçar coturno. E vão ficar ainda mais bonitos! ^^

E só para concluir esse primeiro capítulo:
  1. ao investir em roupas, procure as que são de tecido tecnológico: vão durar mais e favorecer o bem-estar do corpo;
  2. não aceite passivamente o que a indústria da moda nos empurra para nos padronizar;
  3. evite comprar roupas: o fetiche da mercadoria (Karl Marx) faz com que desejemos além de nossa necessidade e possibilidade. Estar bem-vestido tem mais a ver com auto-confiança (atitude!) no que está vestindo (olha aí o Bruno falando de “bermuda AXL Rose” para os caras de terno na Câmara) que com a mensagem que a roupa passa. Isso aqui é um tópico muito profundo, que um dia esmiúço munida de um Roland Barthes, no mínimo um Simmel;
  4. mais importante que andar na moda é andar de bicicleta.

Hoje, 22 de setembro, o jeito é andar a pé, de bicicleta ou de transporte público. Carro, só se for táxi lotação. E vamos nos habituando ao novo, mudando nossos hábitos para melhor!

E agora só para concluir para o namorado:
  1. você é bonito, absolutamente bonito, de qualquer jeito. E eu gosto assim, do jeito que você se mostra: do jeito que é.
  2. desculpa ficar reparando tanto em você… Nem consigo evitar…
  3. usa saia, por favor?? =D

A moda do vô Zezinho

Vô Zezinho: tom sobre tom, azuis que não saem de moda, cinto e sapato de couro marrom, chapéu e protetor solar sempre. E sempre de barba feita. Se cuidar é ter auto-estima e se preparar para cada dia.

O vô dizia que a gente da roça tinha que andar bem arrumado para os outros não pensarem que a gente é ignorante. Ou seja, duas das oito funções da moda, de modernismo e de diferenciação simbólica.

Eu nunca vi meu avô de jeans e camiseta ou malha. Sempre estava com calça e camisa social. Quando ia capinar, calçava as botinas. Não falava de problemas (porque problema todo mundo tem) e sempre nos recebia muito bem, com toda a simplicidade da roça.

Iria renovar a carteira do carro nesta semana – aos 76 anos – mas não deu tempo… Foi para o Céu mostrar como se veste e se porta: nada de túnica (o vô detestava padre! rsrs; mas era religioso) e nada de ficar de chororô. É para frente que se anda: não queria ser velado de noite porque todo mundo tem que trabalhar no dia seguinte. Amém.

O vô e a minha irmã, última foto na roça.

Tem um blog legal que acompanho sobre estilo de idosos: Advanced Style Blog.

[Obrigada aos amigos pelo apoio. (Até o Ravi ligou da Itália). É numa hora dessas que reconhecemos as pessoas.]

Filosofia para o bom estilo (atemporal, essencial, universal e necessário)

O icônico perfume Chanel nº 5 (publicidade de 1958) é considerado vintage e clássico. Mas não nos enganemos com essas duas características! Elas não necessariamente representam um bom estilo, um estilo atemporal.

A seguir, observações de Schiller sobre o estilo, de 1792-93.

“O oposto da maneira é o estilo, que nada mais é do que a suprema independência da apresentação perante todas as determinações subjetiva e objetivamente contingentes.

Pura objetividade da apresentação é a essência do bom estilo: o princípio supremo das artes.

O estilo está para a maneira como o modo de agir a partir de princípios formais está para um modo de agir a partir de máximas empíricas (princípios subjetivos). O estilo é uma completa elevação sobre o contingente rumo ao universal e necessário.”

Bolsa Chanel 2.55, de 1955. Possivelmente, é a bolsa mais copiada atualmente (já há alguns anos!!), das grandes grifes das grandes metrópoles aos camelôs do interior. Um produto popular, que atende ao gosto de todas as camadas sociais, não necessariamente tem um estilo atemporal. Mas, no caso dessa bolsa, ela é sim um exemplo de bom estilo. Hoje, neste exato momento, não a carregamos nos ombros (embora sua alça permita duas possibilidades de uso), mas nas mãos, como fosse carteira.

Universal e necessário, universal e necessário… Isso soa tão Papanek, designer e educador americano considerado um dos primeiros a questionar a responsabilidade e moralidade do designer. Flusser, filósofo em voga, também questionou, mas sem apontar soluções de projeto.

Isso me faz pensar (antes uma ideia inconclusa que convicção, pois já rezava Nietzsche, “as convicções são prisões”) que há uma fundamentação objetiva do que podemos definir como estilo atemporal, digno de objetos que não saem de moda – simplesmente não saem de moda por terem um bom estilo. Isso, definitivamente, não é fácil. Demanda muita simplicidade. Mas aí já estamos falando de outros fundamentos da estética de Schiller…

Apropriação ética de roupas masculinas

Anos 80: a mulher de Yves Saint-Laurent usava smoking e fumava cigarros finos. Assimilação de moda masculina como forma de obter poder.

Ontem, sábado, fiquei conversando durante apenas sete horas com um rapaz muito gentil e de certo charme outsider. Acho que se eu não estivesse sentindo a consequência (sono, fraqueza, low bat) de uma semana sem ter almoçado um dia, dormido quase nada e estudado até o limite da existência, teria ficado conversando até o amanhecer.

Chemisier, camisa-vestido, vestido-camisa, chemise, é sexy e elegante uma camisa masculina acinturada.

Acordei há instantes e me dei conta de que usava o agasalho dele – que pra mim virou um vestido de mangas longas, risos. E aí fiquei pensando num comportamento que nós, gênero feminino, temos em relação a vestir uma roupa masculina.

1978: desfile de alta-costura de YSL.

Por que gostamos de usar roupas masculinas?

  1. nos anos 80, usar terno (com ombreiras, que simulavam ombros de homens) era uma forma de competir profissionalmente. Obter poder por meio das roupas e hábitos masculinos. Ou seja, a roupa funcionava como uma fantasia, para uma mulher passar a imagem de homem;
  2. é sexy vestir camisas masculinas largas, acinturando-as, dando um ar de chemisier feminina;
  3. é despretensioso vestir calças masculinas largas;
  4. é confortável vestir t-shirts e agasalhos de malha. Geralmente, mais largos, ficam com comprimento de vestidos para nós, e dá uma sensação de ser envolvida pelo homem.

    Estilo boyfriend: as calças boyfriend conferem descontração ao look.

Por que gostamos de usar as roupas do cara que gostamos?

  1. resposta óbvia: estar em contato com ele. Roupas são o objeto que está diretamente em contato com nosso corpo e, com o uso, adquirem nossas características como, cheiro e forma do corpo.
  2. resposta difícil de admitir: bem, é uma maneira de nós, mulheres, demarcarmos território. Extender o uso da roupa do dono para a dona do dono da roupa, risos. É triste, mas é verdade. Fazer o que?
  3. no caso de vestir - momentaneamente - as peças íntimas (=cuecas) é uma demonstração de carinho nossa, um reconhecimento/agradecimento por uma boa noite de amor, etc.

Questão ética: o que fazer com o agasalho do rapaz?

Agasalho de um rapaz-elogios: que função e significado devo dar a roupa dele além da função que sua roupa me dá (de proteger do frio)?

  1. devolver lavado e passado?    (= demonstrar cuidado por um objeto dele, = respeito pela identidade dele)
  2. devolver usado? (= demarcar território)
  3. não devolver tão cedo? (=garantir que ele terá de vir até mim resgatar uma parte sua, risos)
  4. não devolver? (= poxa, é um moletom importado, de boa qualidade, é só diminuir o comprimento das mangas, cortar aqui, costurar ali e… ehehe)

Epa!, mas eis que acabo de botar as mãos no bolso canguru do agasalho e acho um cigarro de palha! É, bem, nesse caso, não restam dúvidas: vou devolvê-lo devidamente lavado e passado. ;)

Estilo tomboy: a androginia - ser menino ou menina? - não é só uma tendência de moda. É um direcionamento de comportamento mundial. Há certas pesquisas que apontam, no futuro, coleções unissex - o que seria o supra-sumo de respeito da roupa pela sexualidade de quem a veste.

Moral da história

A forma ética de usar as roupas de um homem, principalmente as do homem que gostamos, é respeitar a identidade dele e sem exercer relações de poder. E, claro, como deve ser em cada gesto na vida, demonstrando o nosso cuidado e amor pelo próximo. 

Ética e estética da sensualidade

Uma das imagens de um trabalho que to fazendo. A engenharia e a química me chamam nesta semana: prova, relatório, artigo, apresentação de trabalho, relação de fornecedores... O bicho tá pegando!

Bom, o dever me obriga a ficar ausente até quinta neste blog: tenho uma porção de coisas pra fazer.

Enquanto isso, vou deixar aqui uma questão para refletir, que é a da sensualidade por meio das roupas.

Body da Osklen: mangas compridas + transparência nos seios. Jogo do esconde (braços) e mostra (seios). Aqui a sensualidade flerta com o vulgar. Mas isso é só uma imagem de campanha de moda, não uma proposição de uso nas ruas.

Duas das oito funções da moda são:

  1. indecência (atração sexual): realçar os atrativos sexuais e a disponibilidade de quem as usa;
  2. ornamentação: enriquecer os atrativos físicos, afirmar a criatividade e individualidade, sinalizar uma associação ou posição dentro de um grupo ou cultura.

Eu penso que a sensualidade consiste em revelar parte do mistério. Revelando-o todo, cai na vulgaridade (julgamento de valor para o erotismo) e na conotação pornográfica (quando o mistério é escrachado).

Nesta campanha de 2009 da Osklen, o olhar é conduzido para o tórax iluminado do rapaz, seguido para o volume de pregas ou outro motivo das calças amplas, quase saia. A frente dele, refletindo no vidro, uma mulher com longo vestido está sentada numa cama, observando-o. Conceito: sensualidade natural e despretensiosa.

A Osklen trabalha muito bem a questão da sensualidade nas roupas:

  • no feminino: costas de fora, fendas, transparência. Nunca há um decotão, uma minissaia ou barriga de fora. A relação com o sexo, com a consciência de ser mulher, é madura.
  • no masculino: calças amplas, quase saias, decotes do tipo canoa (que mostra mais ombro que peito), tecidos fluidos, cujo caimento revela as formas do corpo. O homem da Osklen é um cara seguro da sua masculinidade e, que, logo, pode usar peças consideradas femininas.

    Saia masculina da Osklen. Confesso: o único fetiche que tenho é homem de saia longa. Porque denota uma super segurança na própria masculinidade, ou seja, maturidade sexual + consciência de si mesmo e do próprio corpo. Um cara de saia pode tudo, até usar DUAS regatas!

 

Pergunta: é ético se apropriar das roupas para demonstrar uma estética que não corresponde a uma ética pessoal?

Da forma como a pergunta está, a resposta seria não.

Mas, tratando da moda como a compreendemos hoje, a resposta seria sim. Pois a moda é um veículo que permite o teatro das aparências, em que o superficial é tomado como real.

Amanhã, vou mostrar para o pessoal da engenharia que toda ética corresponde a uma estética e vice-versa (o que é um pensamento socrático, referente a kalokagathía, uma convergência da ética e da estética). Mas, eu tenho cada vez mais pensado – e tenho lido muito para poder pensar também – que não, nem sempre:

a ética sempre corresponde a uma estética, mas nem sempre a estética corresponde a uma ética.

Às vezes, um cara de saia é só uma imagem de macheza, a qual implica no fetiche da saia como mercadoria e no entendimento do homem-objeto. Além da saia, existe um ser humano, com outras tantas características, com gostos, gestos, sonhos, vontades, interesses, estudos, viagens, cultura. Ou seja, a roupa não representa toda a essência de um homem. A não ser no caso dos que são superficiais, aí sim.