Ah, a Arezzo, cada vez mais problemática…

Estava navegando pelo site da Arezzo – sim, a mesma que causou polêmica nacional, em 2011, com o uso de couro de animais silvestres (e, apesar da polêmica ou talvez devido a ela, as vendas aumentaram).

Bem, encontrei a seguinte bolsa, que se diz de couro ecológico e feltro.

Couro ecológico de que tipo?

Couro ecológico de que tipo?

Não compro porque: não tem como saber se esse “couro ecológico“, que é um termo comercial meramente, se trata de laminado vegetal (o tal do “couro” feito de látex sobre tecido), se de laminado a base de poliuretano (pois é!! tem empresa que diz que “couro ecológico” é aquele que não é bovino, ou seja, o velho polímero PU laminado e proveniente do petróleo, recurso natural não-renovável) ou se é couro bovino com redução de agentes químicos no processo de curtimento.

Outra coisa: se o couro é ecológico (e eu só compraria se fosse o laminado vegetal), o feltro deveria ser à base de resíduo têxtil prensado como tecido não-tecido. Porque usar feltro de poliéster (o mais provável por ser comum) e que não é ao menos de pet reciclado, é pilantragem: escolher um material com baixa resistência mecânica para um produto de alto uso (que carrega objetos diversos, pesados inclusive, e de uso regular, pois se trata de um modelo casual, para o dia-a-dia). A rigor, não deveria ser feltro, mas tecido com trama, que oferece melhor desempenho mecânico.

E por fim: não dá pra confiar na Arezzo! Já umas duas sapatilhas que compro, que tem a palmilha feita de PU com cara de couro – ou seja, “chulezenta”. Como que os caras botam plástico em contato com a planta do pé (que mais transpira; o plástico não permite a transpiração) e cobram pelo preço de couro bovino?

Sapatilhas Arezzo: além das formas (sobre a qual o calçado é produzido) não serem padronizadas, o forro interno tem sido tecido e a palmilha de laminado de poliuretano com aspecto de couro bovino. Resultado: chulé e um sapato que não serve direito no pé.

Sapatilhas Arezzo: além das formas (sobre a qual o calçado é produzido) não serem padronizadas, o forro interno tem sido tecido e a palmilha de laminado de poliuretano com aspecto de couro bovino. Resultado: chulé e um sapato que não serve direito no pé.

Mas calma, ainda tem mais: eu calço 37. Mas, dependendo do modelo que calço na loja, é 37, 37.5 ou 38. Ou seja, os caras não tem uma padronização de forma (de forma!!!! uma das coisas mais importantes na confecção de um calçado!!!), aparentando que cada fornecedor da Arezzo usa aquela que convém. E não se trata de tipos de calçados diferentes, pois lá eu só tento as sapatilhas. Então, como comprar no site, se a própria marca não tem uma padronização de seus produtos?

Cadê a Qualidade e a Ética da Arezzo? Sustentabilidade a gente já sabe que não tem. Para mim, essa marca cada vez mais perde valor.

Arezzo no "caderninho preto".

Arezzo no "caderninho preto".

Leia mais sobre a Arezzo neste blog:

Dicas da Maria Zélia e da Edilaine: Pólo Probio, encauchados e folha fumada brasileira + folha defumada líquida

Os comentários (e e-mails) dessas pessoas foram tão bons que merecem destaque como post. Amanhã vou encomendar meus encauchados (to pensando em uma bolsa; aproveitar que a estética indígena está bem na moda), diretamente do Acre.

Encauchados vegetais da Amazônia, do Pólo Probio (estado do Acre).

Encauchados vegetais da Amazônia, do Pólo Probio (estado do Acre).

De acordo com a Maria Zélia,

Os Encauchados são realmente uma tecnologia social, não só dos índios, mas também dos seringueiros, ribeirinhos, quilombolas, desde que morem na Amazônia e tenham seringueiras nativas em suas áreas de floresta preservada. É uma tecnologia simples, barata, que não depende de máquinas para transformar o látex em produtos de mercado. Por isso é que as populações locais se empoderam, pois os produtos prontos são comercializados diretamente por eles, sem intermediários.
A foto acima apresentada como encauchado contendo tecido é uma manta de látex e fibras vegetais, sem tecido, com pintura artesanal, produzida pela comunidade da Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema, localizada em Sena Madureira no Acre. Trata-se de uma das 48 comunidades que trabalham no projeto Encauchados de Vegetais da Amazônia, onde o Poloprobio atua no repasse dessa tecnologia, com vários parceiros, incluindo a Petrobras, o CNPq, a Universidade Federal do Acre e a Universidade Federal do Pará. Mais detalhes em http://www.poloprobio.org.br

É uma sacanagem o que estão fazendo com os povos da Amazônia.

Muitos interesses escusos de grupos políticos dominantes e empresários de má fé. Usam muitos conhecimentos das pessoas humildes que vivem na floresta e não tem malícia pra perceber que estão sendo usurpados,  especialmente os indígenas que tem conhecimentos milenares.
Quanto aos produtos, estão a venda na Casa do Artesão, em Rio Branco-Acre  (Carlos Taborda fone  (68) 3223 0010) e no Espaço São José Liberto (polo joalheiro), em Belém-Pará (fone 91 3344 3537, 91 3276 1934) ou ainda diretamente na comunidade da RESEX do Cazumbá ( Leonora Siqueira Maia, 68 9636 4612-oi ou 91 8100 9388-tim).
O Poloprobio não comercializa, repassa a tecnologia e as comunidades comercializam diretamente e livremente. Qualquer duvida acesse a página do Poloprobio www.poloprobio.org.br
Atenciosamente
Maria Zélia Machado Damasceno

Produtos em Folha Fumada Brasileira (FFB) feitos pelo José Rodrigues Araújo. Em 2005, ele foi até a cidade de Assis Brasil, fronteira com Iñapari, no Peru, e fez um curso de Folha Defumada Líquida (FDL), administrado por professores e técnicos da Universidade de Brasília com apoio do Ibama de Rio Branco. Leia mais aqui.

Produtos em Folha Fumada Brasileira (FFB) feitos pelo José Rodrigues Araújo. Em 2005, ele foi até a cidade de Assis Brasil, fronteira com Iñapari, no Peru, e fez um curso de Folha Defumada Líquida (FDL), administrado por professores e técnicos da Universidade de Brasília com apoio do Ibama de Rio Branco. Leia mais aqui.

E de acordo com a Edilaine,

Além dos Encauchados, há os novos encauchados explicado pela Zélia e se produzem diferentes tipos de mantas na Amazônia, como o Tecido da Floresta em Rondônia, a FFB ( folha fumada brasileira), O “couro vegetal” da antiga TREETAP e os laminados industriais no oeste Paulista, bem como já há FFB produzida industrialmente.
O importante é que cada um tem sua patente registrada de formulação e nome diferente e embora todas utilizem polímero natural, há mercado para todos os produtos e as características de um produto comparada a outro são extremamente diferentes.
Um produto feito na floresta apresenta a característica artesanal diferente do industrial, é isto é obvio somente no olhar o produto.
Acredito que o para o desenvolvimento sustentável do Brasil todos são muito importante.
Desde que não se venda gato por lebre.
O Látex cultivado também é importante porque substitui pastagens que agridem mais e geram menos postos de trabalho.
O que não é justo é dar o nome “made in Amazônia” a um produto de cultivo em outra região.

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Tese de doutorado excelente relacionada, do Centro de Desenvolvimento Sustentávelda UnB. VANTAGEM COMPETITIVA DO ECOSSISTEMA NA AMAZÔNIA: O CLUSTER FLORESTAL DO ACRE, Ecio Rodrigues.

E tudo que eu queria era o e-mail do prof. Floriano Pastore!! Já varri lattes, site da UnB e nada! Precisava conhecer a técnica que ele inventou (e pela qual recebeu o Terceiro Lugar no Prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente 2006) sobre FDL, folha defumada líquida.

Notícias a respeito:

Os paradoxos do látex

Látex da Casa da Resina

A indústria Casa da Resina, que fica em Belo Horizonte (e atende “gente” como Vale do Rio Doce), foi o único fornecedor contatado que logo disponibilizou gratuitamente 200 ml de amostra de látex (borracha líquida, por assim dizer) para minhas pesquisas na Química da UFMG. E sem ficar me perguntando o que eu ia fazer com isso – aquele medinho bobo da indústria em relação às pesquisas das universidades, coisa que outras empresas de maior porte demonstraram. Pelo contrário: atenderam superbem e ficaram à disposição para responder qualquer dúvida.

Látex sendo extraído da seringueira. Vamos puxar na História do Brasil que a extração da borracha já foi uma importante atividade econômica em nosso país... Antes se dava fortemente na Amazônia; hoje, basta percorrer o interior do estado de São Paulo. Reduziram o transporte; "transplantaram" a monocultura...

 O látex é amplamente usado na indútria da moda, especialmente em calçados. Por exemplo, em um tênis tipo All Star, basta olhar para a borracha que envolve o solado (chamada de “vira”), feita de látex. O solado pode ser de látex também, mas com outras composições na fórmula e, em geral, nós chamamos o material de “TR”, abreviação de termo rígido, uma das possibilidades dos polímeros. Há muito o que falar sobre as borrachas da moda, se são do tipo fachete ou não, o tipo de pigmentação/coloração, etc.

O látex popularizado no All Star.

Eu aprecio muito o material que temos chamado de laminado vegetal – ou “encauchado”, como dizem os índios andinos – que é o tal do “couro vegetal”. Já falei muito dele em posts antigos, basta pesquisar neste blog. Trata-se de uma camada de tecido coberta de látex, tornando o tecido impermeável e dando aspecto de couro. Uma tecnologia social, dos índios, que vem sendo explorada por algumas fábricas do interior de SP, RJ e RS. Os índios lá longe nem sabem disso… E eu adquirindo látex em fábrica de MG… São muitos paradoxos.

Diretamente do Acre, caucheros mostram um belo encauchado, material feito de tecido e látex que, aqui no "resto do Brasil", a indústria de curtume fica brigando (vide a Lei 11.211/05 ) com a indústria de polímeros laminados para que não se diga "couro vegetal", mas "laminado vegetal". Os caucheros nem sabem disso, e a Lei nem menciona os encauchados. É Brasil... a Lei é dos empresários.

O que faremos com látex na universidade, do ponto de vista da sustentabilidade social (a tecnologia social é dos índios!), ambiental (sintetizar na indústria e/ou aceitar a monocultura de seringueira?) e econômica (como escolher quem ganha e quem “se fode” no sistema?)????

No final de 2012, eu conto. ;)

Tudo sobre couros, na revista Tag (e aqui no blog também!)

Recentemente, servi de fonte para uma reportagem sobre couros da revista Tag, de Bauru-SP. (Neste ano, outras mídias, como Folha de São Paulo, Rede Record, Jornal da Pampulha, também entraram em contato para trocar ideias sobre Moda e Sustentabilidade).

O tema da edução #5 da revista Tag é Reutilização, com muitas infos de moda, design e sustentabilidade. Está muito legal mesmo a revista! Vá direto para as páginas 32-33 e leia mais sobre couros!

Para quem quiser saber mais sobre couros, segue abaixo sabatina, perguntas inteligentes que são raros os jornalistas capazes de fazer.

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Entrevista Revista Tag UNESP – Bauru/SP

Lívia Neves

Luciana Duarte

  1. O que é o couro em si? (Existe uma lei que não permite que materiais que não tenham origem animal sejam chamados de couro)

No contexto da moda, couro é toda pele animal, do couro bovino ao couro do pé de galinha. De acordo com interpretação do artigo 8º da lei 11.211/05, couro é a matéria-prima constituída de pele animal.

A saber, o artigo diz:

“É proibido o emprego, mesmo em língua estrangeira, da palavra “couro” e seus derivados para identificar as matérias-primas e artefatos não constituídos de produtos de pele animal.”

  1. Como o couro surgiu no vestuário?

Infere-se que o couro tenha surgido no período pré-histórico. A antropologia da arte e história da arte atestam que os homens considerados pré-históricos valiam-se das peles, ossos e dentes dos animais (ex. mamutes) para adquirir os poderes dos animais após caçá-los. Nesse sentido, o uso da pele animal (couro) surge, como veste com finalidade mística. Outras finalidades de surgimento do couro no vestuário é como abrigo para o corpo das intempéries climáticas e como proteção para os pés (solados).

Não sei precisar qual a data de surgimento de couro, mas a lã, que é um produto da pele animal, é considerada tendo surgido com os povos da Mesopotâmia em cerca de 7.000 a.C.

Vale lembrar que o conceito e dinâmica de moda surgem em 1850 com Charles F. Worth; logo o couro, enquanto produto para o vestuário (incluindo calçados e acessórios) de moda, é considerado tendo surgido a partir de então.

  1. Por que ele é tão valorizado, atualmente?

Creio que o couro em si nunca deixou de ser valorizado, devido a suas propriedades de resistência mecânica que lhe conferem durabilidade com o uso e o fazem sinônimo de produto de “qualidade”.

Atualmente, os couros considerados exóticos (vide couro de rã, avestruz, píton, etc.) – ou exotic leather – estão na moda, com diversos acabamentos e cores. Diversas terminologias impróprias, como couro ecológico e couro vegetal, também situam o couro como assunto da moda, atribuindo a essa matéria-prima o valor daquilo que está em evidência na sociedade.

A saber, no meu blog e pelos mecanismos de busca do WordPress e do Google para chegar ao blog, os termos couro ecológico e couro vegetal são os mais buscados diariamente, há meses.

  1. Qual a diferença entre a composição do couro animal e do couro ecológico/sintético?

Para situar nossa conversa dentro da lei, vamos considerar os termos:

  • Couro animal equivale a couro. Somente a palavra couro basta designar o material constituído pele animal, que pode ser do couro de coelho (branco, com pelos felpudos e macios) ao couro de tilápia (com textura em alto relevo geométrico depois de retiradas as escamas). O biocouro (ou bio-couro ou bioleather) pode ser considerado como um subconjunto do grupo couro, determinando couros que são processados com a ausência ou o mínimo de materiais tóxicos nos curtumes. É um termo bastante em voga.
  • Couro ecológico equivale a laminado vegetal ou laminado recuperado de couro. Laminado vegetal é sinônimo de encauchados, uma tecnologia social dos índios andinos apropriada há cerca de oito anos pela indústria brasileira (inicia-se com a empresária Beatriz Saldanha e sua empresa Amazon Life), constituindo-se de uma camada de tecido natural (ex. algodão) que recebe sobreposta uma camada de látex proveniente das seringueiras. Já o laminado recuperado de couro é um produto constituído de couro considerado resíduo de curtumes (de acordo com empresário da Couro Ecológico, o Brasil gera 30.000 toneladas de resíduo de couro por mês) associado a um material aglutinante, unindo tais fragmentos moídos do resíduo de couro.

A saber, na indústria da moda, o termo couro ecológico tem sido utilizado para o couro propriamente dito, principalmente referindo-se às peles de peixes, sendo as mais comuns as de tilápia, salmão, pescada amarela e dourado; quanto para o laminado vegetal, o laminado recuperado de couro e o “couro sintético”, isto é, o laminado sintético, constituído de polímero (ou, designação vulgar, plástico) proveniente do petróleo (recurso natural não-renovável).

  1. Qual a eficiência do couro na questão de durabilidade e resistência?

Não disponho de dados quantitativos sobre a resistência mecânica do couro. Acredito que tais informações precisas possam ser encontradas nas áreas de Engenharia Têxtil e Engenharia de Materiais. Se não, são uma oportunidade de pesquisa.

Considerando dados qualitativos e empíricos, em termos de aparência visual, o couro, mesmo desgastado pelo uso, é tido – atualmente, na moda vestuário e no mobiliário – como mais bonito,preferível que o laminado sintético. Esse desgaste é chamado “efeito used”, de usado; em tempos de incerteza e mudanças no mundo, é um material eficiente em termos de semântica, dialogando com a estética vintage, proporcionando conforto sensorial (ao contrário do sintético, possui poros e permite que “o pé respire”, transpire), conferindo identidade de legítimo e proporcionando, por essas razões, segurança ao usuário, por ser também um material bastante conhecido, genuíno e há muito tempo em uso (antigo, convencional, resistente, autêntico, duradouro).

Talvez este seja um caminho que responda a suposição da pergunta n. 3, de que o couro esteja na moda. Na verdade, a estética vintage (objetos antigos e resistentes proporcionam segurança e conforto em tempos difíceis e incertos) é que está na moda (isso não significa tendência, mas resposta da indústria da moda a uma demanda do consumidor), e o couro propriamente dito é um material que sempre esteve em uso, mas que se evidencia na moda por meio da necessidade de consumo, isto é, da motivação do comportamento das massas por produtos que transmitam os valores subjetivos já assinalados.

  1. Como devemos cuidar da peça para que ela dure por mais tempo?

Essa é uma questão que abrange diversas opiniões. Pessoalmente, por considerar o couro uma pele, eu conservo meus sapatos e acessórios de couro limpando-os com flanela levemente úmida, raramente uso álcool, costumo passar hidratante corporal (o mesmo que uso para minha pele), nunca uso graxa nem produtos para finalidade de conservação de couro que são comercializados em supermercados. Como designer, evito comprar sapatos cujas partes frontal (que cobrem os dedos) e posterior (cobrem o calcanhar) sejam de couro, porque as mesmas sofrem mais desgaste ao caminhar, logo, arranham com maior frequência o material – ou seja, procuro por boas soluções de design de calçados que valorizem o material para que o mesmo tenha maior ciclo de uso e de vida.

  1. Qual alternativa é melhor para o meio ambiente, sendo o sintético derivado do petróleo e o legítimo dependendo da vida de um animal?

Desconheço estudos que apontem qual a melhor alternativa. A saber, a ferramenta “Análise do Ciclo de Vida” pode indicar qual o caminho de menor impacto ambiental, sendo essa uma oportunidade de pesquisa.

Com base nas informações que tenho, infiro que a melhor alternativa não é nem o laminado sintético nem o couro, mas sim o laminado vegetal, que combina uma fibra têxtil natural e possível de ser orgânica com um material renovável e natural, que é o látex. O sintético, para justificar a extração de um recurso natural não renovável, como o petróleo, precisaria ter propriedades mecânicas e estéticas equivalentes as do couro. Por outro lado, sabemos que o couro bovino, amplamente usado na moda, provém do abate de animais que emitem gás metano, um dos maiores causadores do efeito estufa. Há alguns anos, morei com uma pesquisadora norte-americana cujo objeto de pesquisa era mapear as emissões de metano dos rebanhos bovinos no Brasil. Uma pesquisa indica que o Brasil possui o segundo maior rebanho do mundo (quase equivalente ao número da população brasileira), responsável por 29% das emissões de metano no país, contribuindo fortemente para o aquecimento do planeta e todo o desarranjo da natureza. Como vemos, uma coisa leva a outra, e daí podemos notar a relevância social de diminuir ou restringir o consumo de carne vermelha e de produtos de couro. Em outras palavras: consumir produtos de couro estimula o aumento do aquecimento global.

Logo, trata-se de uma questão controversa, impossível de ser respondida apenas com informações não comparativas com os mesmos parâmetros e em termos quantitativos para os distintos materiais.

  1. Qual alternativa é mais cara para se produzir?

Não disponho dos valores exatos de produção e comercialização do couro e dos laminados. Essa informação pode ser obtida com base em dados estatísticos formulados após pesquisa com os produtores e demais stakeholders.

Pessoalmente, infiro que o material proveniente do abate de animais é mais caro, porque envolve a criação (manutenção do pasto, abrigo, alimentação, vacinação) de diversos seres vivos e a posterior transformação de suas peles nos curtumes, ou seja, são duas etapas para obter o couro. Já o sintético, amplamente produzido na China, é comercializado com valores abaixo do couro.

  1. Sobre a questão da retirada da coleção de pele da AREZZO, como você se posiciona sobre o assunto? Não seria muita hipocrisia permitir que couro de vaca seja livremente explorado, mas o de raposa/ovelha seja restrito? As vidas estão sendo tiradas da mesma forma.

Os fabricantes, como no caso do Birman (empresário da Arezzo), valem-se do argumento que o couro provindo do abate de animais destinados à alimentação do homem é justificável como matéria-prima nas coleções de calçados e acessórios. Já o couro provindo do abate de animais exclusivo para uso na moda (ex. raposa, chinchila) deve ser recriminado. Na época, a empresa manifestou-se por meio de uma nota no site, demonstrando uma postura de ausência de responsabilidade pelos materiais que utiliza (cito: “Não entendemos como nossa responsabilidade o debate de uma causa tão ampla e controversa”).

Baseando-me em Flusser, um dos principais filósofos que tem sido estudado na área de design e comunicação, afirmo que: a incompetência da universalização autoritária das normas, a complexa rede industrial como responsável moral por um produto e a novidade da questão da ética como pertinente ao desenvolvimento de produtos, configuram um cenário de muitos questionamentos e poucas respostas. Estamos em um momento em que a ética na indústria está sendo discutida; apontar um julgamento de valor (caso da palavra hipocrisia) restringe a discussão; a empresa e os consumidores estão aprendendo juntos o que é e como deve ser a ética da sustentabilidade.

Eu, inclusive, que embora seja pesquisadora de moda ética, tenho três pares de sapato Arezzo com couro bovino. No entanto, a partir do momento em que tenho acesso a informação de que a criação de bovinos para abate (com finalidade de alimentação humana, couro para a moda, ossos como fertilizantes e demais subprodutos) fomenta o aumento do aquecimento global (fato que tira a vida de milhares de outros seres vivos), eu passo a ser responsável por esse conhecimento e uma mudança na forma de viver se faz necessária (para mim, não faz mais sentido comprar produtos de couro, ainda mais os da Arezzo). Grosso modo, resumindo dois milênios de filosofia, ética significa viver para o bem. Hipocrisia seria saber de tudo isso e continuar a viver comodamente, consumindo carne e couro, um consumo que não visa o bem da biosfera.

Referências

CIDREIRA, R. P. Os sentidos da moda: vestuário, comunicação e cultura. São Paulo: Annablume, 2005.

CHATAIGNIER, G. Fio a fio: tecidos, moda e linguagem. São Paulo: Estação das Letras Editora, 2006.

CHEHEBE, J. R. B. Análise do ciclo de vida de produtos – ferramenta gerencial da ISO 14000. Rio de Janeiro: Qualitymark Ed., 1998.

COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

FLUSSER, V. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

LEE, M. Eco chic: o guia de moda ética para a consumidora consciente. São Paulo: Larousse do Brasil, 2009.

MANZINI, E.; VEZZOLI, C. O desenvolvimento de produtos sustentáveis. São Paulo: EdUSP, 2005.

Entrevista Wolfgang Goerlich presidente do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil

Couro ecológico

Environmentalists thought they could save the rain forest and make money at the same time. They were wrong. In: Newsweek International. Feb. 16, 2004.

O gado esquenta o mundo

Uso de pele animal é tendência, defende presidente da Arezzo. In: Folha de São Paulo

O caos da Pelemania na Arezzo

PETA: People for the Ethical Treatment of Animals + tipos de abate por couro

Love All Animals

Só existe um tipo de “couro” verdadeiramente ecológico: os laminados vegetais, isto é, os encauchados, tecidos naturais que recebem uma camada de látex da seringueira.

A rigor, couro significa pele de animal e provém do abate de diversos tipos de animais, seja abate exclusivo para obtenção da pele (caso das chinchilas, raposas, zebras, girafas, crocodilos, cobras/píton, etc.) ou aproveitamento da pele em função de abate demandado por alimento (caso dos bovinos, caprinos, de pata de galinha, coelho, avestruz, peixes, rãs, etc.).

Este blog é parceiro da PETA.

Save Our Skins

Laminado vegetal, couro vegetal, couro ecológico + Ecológica

O verdadeiro couro ecológico é aquele que não agride a natureza, que não provém do abate de animais. Ou seja, estamos falando do couro vegetal, que vem da borracha das seringueiras.

No entanto, de acordo com o artigo 8º da lei 11.211/05, que proíbe o uso da palavra couro para designar materiais e produtos não constituídos de pele animal, o couro vegetal/ecológico passou a se chamar “laminado vegetal”.

Extração do látex em seringueira

Em outras palavras: não existe couro vegetal nem couro ecológico, mas sim laminado vegetal. Couros de peixes não são ecológicos, são couros de peixes mortos. Couros sintéticos, que imitam peles de animais, são materiais à base de polímeros, do petróleo.

Em fevereiro, estive com um representante da Ecológica Laminado Vegetal do Brasil.

Bola de laminado vegetal da Ecológica

Essa empresa é bem bacana:

  • parceira do Sebrae, Senai e Instituto de Pesquisas Tecnológicas;
  • possui um Índice de Sustentabilidade de Produtos, indicando a composição da matéria-prima;
  • une técnica artesanal centenária + alta tecnologia industrial;
  • o material do laminado vegetal (borracha) é produzido em Magda-SP – e não na Amazônia (Rondônia e Acre são estados com boa produção de couro vegetal/ecológico / encauchado/laminado vegetal). Isso significa diminuição nas emissões de CO2 provindas do transporte do material para ser comercializado numa das principais “praças” do Brasil;

Tênis da Öus, com laminado vegetal

Sobre o laminado vegetal da Ecológica:

  • é produzido a partir do látex natural extraído da seringueira em bobinas contíbuas de 25 metros lineares de comprimento por 1,18 de largura;
  • a capacidade inicial de produção é de 25 mil metros lineares por mês;
  • possui diversas gramaturas, cores e estampas;
  • é uma alternativa ao uso do couro animal e de laminados sintéticos (“couro sintético”) derivados do petróleo;
  • o fabricante afirma que os processos de espalmagem do látex e secagem em estufa não produzem resíduos de qualquer espécie. Eu achei isso confuso, porque toda atividade que envolve transformação de matéria-prima implica em gasto de energia, a qual muitas vezes é dissipada como calor, outras vezes como CO2, etc. A questão é como que o fabricante faz com que os resíduos não causem (ou causem o mínimo de) impacto no meio ambiente.

Tênis ecologicamente correto, com laminado vegetal, ideal para skate, da Öus. Excelente design!

Para saber mais, veja outros posts:

Breve introdução aos couros no contexto da moda ética

Couro "metal free", flor integral, com efeito "machiatto" feito à mão e estampa dark tamponado. Fornecedor: Brespel

Devido à ENORME procura por couros neste blog, vou compartilhar um trecho de um artigo que estou escrevendo sobre o tema. Há algum tempo atrás, uma revista destinada a vegetarianos havia entrado em contato comigo para poder dar uma definição clara sobre esses couros ecológicos, couros biológicos, couros sintéticos, couros vegetais, couros sem cromo, etc. E aí eu vi que o assunto é muito vasto e não consta na literatura, só no nosso conhecimento de mercado…

Couro livre de cromo com acabamento batik. Fornecedor: Criart by Brasil - Ecologic Leather

Segue aí:

Atualmente, a sustentabilidade se configura tanto como uma moda – no sentido de objetos que expressam um comportamento em um tempo – quanto como uma característica que o setor de moda tem buscado em função de consumidores cada vez mais informados e exigentes. Para atender a demanda por produtos “verdes”, sustentáveis e éticos, os fornecedores de componentes e materiais para as confecções têm procurado ofertar matérias-primas cujo primeiro pré-requisito é diminuir o impacto da produção no meio ambiente. Dessas matérias-primas, destaca-se o couro, largamente utilizado em vestuário, bolsas, calçados e acessórios em geral.

Couro bioleather estampado com pintura manual. Fonecedor: Berlonzi

                No contexto da sustentabilidade e da moda, diversos termos são utilizados para designar os tipos de couros, como bio, ecológico, sintético, vegetal, etc., causando confusão não só para os consumidores na escolha do produto adequado, como para os estilistas e designers na escolha do material compatível à proposta conceitual e comercial da coleção e da marca.

Bioleather com 3 acabamentos. Fornecedor: Berlonzi

                A napa, termo comum equivalente a couro bovino, muito utilizado pelos criadores de moda, significa, a rigor, espécie de pelica fina e macia. Com a profusão dos materiais sintéticos, que simulam as características óticas e de textura dos couros, a napa passou a ser compreendida também como tecido polimérico barato que imita o couro – ou seja, um couro sintético.

Couro bioleather grafitado. Fornecedor: Berlonzi

                O termo couro sintético, por sua vez, estende-se a maior parte dos tipos de couro, por simular peles como de píton (cobra), crocodilo e avestruz, além da bovina. É um termo mais comum no âmbito da criação e desenvolvimento de produto de moda, pois para o consumidor final este termo passa a ter o “apelido estratégico” de couro. Assim, nas lojas, produtos de couro natural e de couro sintético (composto por tipos de polímeros, sendo muito comum o poliuretano) são chamados resumidamente de couro, com o intuito óbvio de se “vender gato por lebre”. Apesar disso, o termo “couro sintético” é proibido pela lei nacional (vide artigo 8º da lei 11.211/05, que diz “É proibido o emprego da palavra couro e seus derivados para identificar as matérias-primas e artefatos não constituídos de produtos de pele animal”), numa tentativa de proteger as indústrias de curtume do Brasil.

Napa snow estampa madeira. Fornecedor: Casa de Couros Romeu Ltda. COURO COM ESTAMPA DE MADEIRA É A ÚLTIMA MODA!!! ;)

                Por não provir do abate de animais e com a moda da sustentabilidade, o termo couro sintético passou a ser sinônimo de “couro ecológico”, o que é uma designação inapropriada e oportunista, afinal o plástico componente do couro sintético vem do petróleo.

Solado de couro reconstituído (isso significa farelo de couro aglutinado, o que não é nenhuma novidade, inclusive é um processo semelhante ao da couraça, da estrutura interna de cabedais; a indústria faz esse material pelo menos desde os anos 70). Fornecedor: Couro Ecológico

                Na indústria da moda, o termo couro ecológico tem sido utilizado para as peles de peixes, sendo as mais comuns as de tilápia, salmão, pescada amarela e dourado. Mas por que somente os couros de peixe são ditos ecológicos? Isso se deve a proposição de que, com o abate dos peixes para o consumo alimentar, suas peles, ao invés de descartadas, seriam aproveitadas no setor de moda, e não apenas descartadas. A justificativa é questionável porque também valida o couro proveniente do abate de bovinos, que é comprado pelos curtumes. Os couros ecológicos também são conhecidos como “couros alternativos”, incluindo o couro de rã.

Pele de salmão com aplicação de estampa. Fornecedor: Nova Kaeru Exotic Leather

Acima: Couro de avestruz (APOSTO NELE NO INVERNO 2012!). Abaixo: Couro de pescada amarela. Fornecedor: Péltica Peles Especias

A Nova Kaeru, um dos principais fornecedores de couros ecológicos, que inclusive tem produtos homologados pelo respeitado Instituto e (ONG originada na Osklen, mas que funciona independentemente desta), oferece um produto chamado de “bio couro”. Este termo refere-se ao método de curtimento aliado ao conceito de “Análise do Ciclo de Vida”, cunhado pelos pesquisadores italianos Ezio Manzini e Carlo Vezzoli (autores de “O desenvolvimento de produtos sustentáveis”). Tal método, de acordo com o fornecedor, utiliza exclusivamente produtos orgânicos, para que o couro possa retornar à natureza – daí a justificativa do prefixo “bio”, de biodegradável. É importante frisar a relevância deste método, pois os curtumes utilizam de diversos metais pesados, como cromo, que agridem o meio ambiente.

Napa metal, lixada com cera de carnaúba (que impermeabiliza e tem efeito antibacteriano e fungicida) e quebras naturais com acabamento perolado (que eu desconfio que seja à base de compostos inorgânicos). Fornecedor: Couroquímica

                Todavia, o verdadeiro couro ecológico é aquele que estritamente não agride a natureza – logo, nenhum dos couros mencionados até então, que ou vêm de animais ou vêm do petróleo. O legítimo couro ecológico chama-se, na verdade, “couro vegetal” ou ainda “encauchado”, produto proveniente do látex da seringueira (árvores do gênero Hevea) ou do caucho (árvores da espécie Castilloa ulei). O couro vegetal tornou-se bastante popular em meados de 2000, no auge da sustentabilidade como tendência de moda internacional, sendo fornecido pelas empresas Amazon Life e Treetap.

Couro lixado e batido com arte em laser Terra do Nordeste (natureza). Fornecedor: Couroquímica

                Entretanto, devido à proibição legal da palavra couro para os produtos que não são de pele animal, a indústria tem usado não mais o termo “couro vegetal”, mas sim “laminado vegetal”, bem como “vegetable leather”. Ex. a empresa Ecológica.

Laminado vegetal natural aplicado em uma base rústica 100% algodão com toque macio e sedoso. Fornecedor: Ecológica

Acima: Laminado vegetal em látex natural com toque sedoso e suave. Abaixo: Laminado vegetal em látex natural. Fornecedor: Ecológica

 Os fabricantes têm tentado inserir o couro vegetal ou laminado vegetal no mercado, mas esse material vende pouco. Seu processo de fabricação ainda não está otimizado; não há uma padronização do material, especialmente quanto ao seu estado ótimo de catalização. Em outras palavras, é um couro meio “grudento”, como um chiclete velho. E ainda tem um preço menos competitivo que os couros sintéticos – que se passam por ecológicos, na conversa que o representante e o vendedor tentam passar na gente!

Acima: couro semicromo acabamento batik. Abaixo: couro livre de cromo com acabamento batik. Fornecedor: Criart by Brasil - Ecologic Leather

                              Saiba mais sobre couros em outros posts meus:

Dicas da Marlova Schneider

A Marlova Schneider é uma parceira e tanto aqui na blogosfera! Graças a ela, consegui postar um vídeo e criar um gravatar (seja lá o que for isso…) ehehehe!!

1. O documentário “The Corporation”, que denuncia a moral das grandes corporações e suas propostas e ações anti-éticas.

2. Na real, diante da Lei, não existe o termo “couro sintético”. Saiba mais em Assintecal – Termo “couro sintético” é proibido por lei.