Quatro maneiras de não costurar um produto de moda

Costureiros: uma grande classe de trabalhadores ainda na informalidade.

A principal vantagem de uma roupa sem costura é justamente eliminar a etapa de confecção do produto de moda, a qual em geral se dá por meio de costureiras terceirizadas (a tal da “facção”), que cotumam trabalhar em períodos sazonais (pois a moda é sazonal, isto é, em função de um calendário regido principalmente por estações e datas comerciais). Ou seja, a costura de produtos no sistema da moda acaba gerando um dos maiores bolsões de desemprego temporário no país (que atinge fortemente as mulheres, pois trata-se do setor que mais emprega mão-de-obra feminina no país), subemprego, trabalho informal (sem carteira assinada – afinal, por que o empresário vai assinar carteira da costureira terceirizada se ela só trabalha de tempos em tempos?). Enquanto o sistema se der dessa forma, não podemos falar em desenvolvimento social nem em sustentabilidade social na moda.

Desenvolvimento social na moda começa com o empresário assinando a carteira de trabalho da costureira.

- Se o pessoal de marketing de moda ainda não entendeu, eu desenho o arranjo produtivo do sistema indicando os milhares de costureiros (sim, tem muito homem também, e costumam ser rapazes latino-americanos) mal empregados em nosso país.

Tive uma ideia! O empresário pode sugerir para que a costureira terceirizada seja registrada como Empreendedor Individual – e ele pode, então, começar a garantir alguns benefícios para ela, ele pagando isso para ela… É uma coisa a se pensar direito; foi só uma ideia que surgiu agora. Em outro post, prometo ensinar a fazer isso direitinho, que eu também vou me registrar como Empreendedor Individual na semana que vem.

Bem, mas por que eliminar a etapa de costura de um produto?

Resp.: facilitar a produção e reduzir os inputs e outputs no meio ambiente. Porque reduz tempo de produção (o que pode implicar em várias coisas legais, como aumento da produtividade), porque sem máquinas a conta da luz diminui (e assim a demanda por energia), etc. etc. etc. etc. etc………….

Dá para escrever um artigo científico sobre essa resposta curta e grossa, mas eu vou focar em mostrar aqui quatro maneiras básicas de se eliminar a costura em um produto de moda:

1. Com um retângulo de tecido, cortado no fio, enrolar o corpo; técnica de moulage, drapping, Madeleine Vionnet, etc.

 

 

No Brasil, isso não é muito comercial. A consumidora de moda brasileira valoriza praticidade e sensualidade – e uma roupa que tem que enrolar toda no corpo para tomar forma, vende pouco. A gente poderia comentar mais sobre isso: a forma pronta e fácil de ser usada é confortável, e as pessoas tendem a optar pelo conforto (modelagem plana, partes costuradas). Infelizmente, o conforto é das coisas que mais desejamos… digo infelizmente porque o conforto nos aliena em soluções já prontas, já pensadas, logo, tendemos a não pensar no que estamos fazendo, a não pensar no como estamos vestindo a roupa no próprio corpo, a reduzir a percepção de possibilidades de uso de uma única peça de roupa. Mas isso é outra história e é um prisma de percepções.

2. Transformar uma roupa em outra por meio de abotoamentos e amarrações da mesma; isso é fácil com camisas masculinas inseridas no contexto feminino (como vestido ou saia); ou com vestidos longos que se dobram no busto, configurando em diversos comprimentos; trabalhar com as mangas, etc.

 

 

 

3. Tecnologia! Roupas inteiras sendo produzidas sem costuras. O setores de underwear (calcinhas, sutiãs, cuecas, meias-calças, meias) e de beachwear destacam-se nessa proposta.

 

 

4. Tricô, crochê e técnicas de bordado em geral. Aliás, a rendeira e a bordadeira estão na mesma informalidade que a costureira…

Vestido com renda de bilro, criação de Walter Rodrigues, 2001. Aplicações de renda de bilro produzidas pelas rendeiras da Associação das Rendeiras de Morros da Mariana, Piauí, no projeto Moda e Artesanato. Veja mais rendas no blog Renata Batata.

Meu ponto de vista não é de acabar com o setor de costura na moda. Só estou ampliando a discussão de que costura é indispensável na moda brasileira, sim, mas por outro lado, produtos sem costura causam menor impacto ao meio ambiente. E se é para criar más condições de trabalho, é preferível que a máquina substitua o homem, e que o ser humano vá trabalhar em um setor mais respeitoso que o da moda.

O melhor dos mundos é:

  • costureiros, bordadeiros, rendeiros com carteira de trabalho assinada
  • produtos com menos costuras

Lagoa Santa + James Dean + carteira mágica

Lagoa Santa - MG

Ontem conheci pessoalmente um cara que tinha me chamado para um projeto em Lagoa Santa/MG, o Bruno. Em breve, vou começar a  escrever sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade para o portal que ele está criando sobre Lagoa Santa, um projeto muito interessante. A conversa, que era pra durar uns 15 minutinhos, foi pra mais de duas horas – e isso que foi bem objetiva. Haja assunto!

Lagoa Santa é uma cidade cheia de riqueza – ex., tem os mais antigos registros paleontológicos das Américas. No ano passado, comecei um projeto lá, de design e artesanato. Veja mais em outros posts:

Crânio de Luzia, encontrada em Lagoa Santa e considerada o fóssil humano mais antigo das Américas, com 11.500 anos

Eu não vejo a hora de começar a fazer turismo para vivenciar toda cultura e natureza local. E aí sim poder escrever.

Cachoeira Serra Morena, Lagoa Santa-MG

Bom, eu sou obrigada a falar do Bruno  não por sua conduta ética – transparente e aberto, tirou todas as dúvidas que eu tinha – mas por causa da sua estética James Dean. Claro que eu fui reparar na roupa do rapaz né! Um dos meus orientadores na Engenharia, que costuma aparecer discretamente vestido de Lacoste, D&G, Gucci, Diesel, fica pegando no meu pé que eu reparo na roupa dele. Acho isso horrível, mas não consigo evitar: uma vez que vc. trabalha como estilista, seu olhar é atraído para as roupas, o estilo, a imagem da pessoa. Pois bem, eu falava das roupas do rapaz.

Ele usava exatamente o look abaixo (sem o cigarro, detalhe fundamental):

James Dean, seu estilo dos anos 1950 dura até hoje na moda masculina.

Tudo no estilo casual, clássico e no que se convencionou chamar de elegância despojada. Não precisa mais que isso para um cara estar bem vestido. Detalhe: é um estilo que se iniciou nos anos 1950 e nunca mais saiu de moda. E por que?

Nem sempre uma estética corresponde a uma ética. Jimmy: rebelde sem causa. Bruno: sensato com causa. E ambos com a mesma roupa.

James Dean é considerado ícone de rebeldia, de juventude, da liberdade, etc. Um estilo que dura mais de meio século pertence ao que chamamos de slow fashion, de estilo atemporal.
JamesDean.com

Ao final do encontro, ele tirou a carteira e aí – tcharans! Era exatamente a carteira que eu queria comprar, mas havia desistido de tanto que a vendedora frisou ser um objeto masculino.

"Carteira mágica" ou "carteira que abre e fecha".

Vamos relembrar uma coisa: homens não usam bolsa, não carregam necessaire, logo, o objeto mais íntimo que carregam consigo é somente a carteira. Pois é né. Mas isso não me impediu de dar o furo: ao ver que era a carteira que eu queria, exclamei ah, você tem essa carteira!, tomei-a das mãos do rapaz (o qual eu nunca havia encontrado antes na vida) e comecei a abrir e fechar!!! ahahaha Aiiiii!!! Quando me dei conta, nossa, desculpa, já tinha feito bobagem! Até agora não to acreditando que eu fiz isso…

Próxima carteira masculina que vou ter. A atual foi herdada do meu pai - e até hoje não achei carteira feminina melhor: simples, pequena, prática e de couro legítimo. Carteira feminina tem muito frufru e complicação.

Márcia Ganem: técnica artesanal com poliamida reciclada

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Márcia Ganem, que já está no mercado há 10 anos, é minha nova estilista brasileira preferida!

Sua última coleção (inverno 2011), desfilada na Capital Fashion Week, foi demais! ;)

Diferencial: harmoniza contrastes, unindo técnicas artesanais com têxteis diferenciados, tecnológicos. Valoriza o artesanato brasileiro, expressando na linguagem da moda, com pesquisas tecnológicas. 

Estilo: sensual, delicado, romântico, contemporâneo. Sintetiza de forma original o que chamamos de “estilo brasileiro” (sem cair no folclore, no pastiche, no literal, no indígena, etc.).

Cores: branco, off-white, negro e vermelhos, que dialogam bem com outras cores.

Técnicas: renda de bilro, filé, flor da maré (desenvolvida pela estilista).

Materiais: fibra de poliamida reutilizada da indústria automobilística, gaze hidrófila, gemas semi-preciosas.

Parcerias sociais: Rendeiras de Saubara, Bordadeiras da 25 de Junho.

Publicações que constam seus trabalhos: Fashioning Fabrics, Textille Designers, dentre outros livros europeus.

ffwmag! Mão dupla: artesanal x tecnológico

ffwmag! no Ipad

Pra continuar a discussão sobre a estética da gambiarra, a edição 23 da Mag! está ótima. Eu costumo comprar essa revista e super recomendo. Pra mim, é a única revista brasileira de moda e comportamento que tem conteúdo original – e não um repeteco de editoriais de vogues e elles de outros países… Não só as imagens têm alta qualidade, mas os textos também (o que é bem raro em revistas de moda).

Essa edição está valiosa para se pensar no design brasileiro: torna clara uma estética (que eu julgo genuína nossa) legítima da ética de um “povo brasileiro”. Bambu, tricô, bordados, computadores, programação, masturbação, imrpoviso, imaginário, arte popular, colagem… Contrastes!!! 

Abaixo, alguns sites referentes ao conteúdo interno da revista. Vale a pena conferir!

No mais, àqueles que acompanham esse espaço, desculpas pelo sumiço. É um mistério que quanto menos eu posto, mais acessos tem o blog (não entendo). Andei sumida porque começaram as aulas do mestrado e, nesse meio tempo, passei a ter novas funções e responsabilidades no trabalho (de modo que tenho desenvolvido um comportamento workaholic). Mas, apesar, a vida tem melhorado. Boas oportunidades têm surgido, inclusive por causa deste blog… Bem, agora vou aproveitar esse fimzim de domingo para conferir uma exposição de arte e, depois, estudar, estudar, estudar e rooonc e fiiiiuuu. ;)

Onde esteve Wally?

Eu no I CONNARI, na UFSJ

Bem, Wally esteve no I Congresso Nacional de Artesanato da Rede de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITPCs) – I CONNARI. Eu havia ido lá em São João del-Rei/MG, na UFSJ, apresentar um trabalho científico sobre artesanato e a identidade cultural de Lagoa Santa/MG. Para saber mais, clique aqui.

Foi bem legal, houve inclusive uma discussão sobre moda e artesanato, que deu pano pra manga. Bem, agora estou aguardando “ardentemente” eles me reembolsarem as passagens!! ehehe ;)

Osklen + trabalhos + senai BH + desfile de moda sustentável + tributação ecológica

Ahhhh!!! Delícia!!! Acabei de voltar da corrida, com meu melhor desempenho!!!  :D
Bem, vamos às boas notícias!!!

Osklen

Osklen, primavera de 2008

Recebi hoje quatro DVDs da Osklenempresa tema da minha monografia de moda ética - que foram enviados pelo super prestativo e gentil sr. Vladimir Sybilla Pires, que trabalha lá há dez anos. Se a Osklen é essa empresa incrível que conhecemos, tem o mérito de pessoas como esse cara. Sou muito grata, mesmo! Espero que numa oportunidade no Rio de Janeiro, eu possa agradecê-lo pessoalmente. 

Trabalho voluntário – Ecobags

Ecobag Osklen

Rááá!!! :P Me chamaram novamente pra dar a oficina de ecobags em Nova Lima/MG! Eu queria muito fazer isso, de graça, de coração. São coisas assim que dão sentido na vida da gente, poder contribuir pra economia solidária, capacitar as pessoas, passar meu conhecimento adiante. Vai ser legal! Estou com muitas ideias! Um passarinho me contou que essas ecobags desenvolvidas talvez sejam comercializadas no supermercado Verdemar… Vou fazer o possível pra que as artesãs e equipe tenham essa oportunidade.

Há duas semanas, fiz um outro trabalho voluntário – o mais diferente da minha vida. Desenhei 18 rostos, chamados de “faces frias” (sem olho, nariz e boca), pra um projeto do Instituto Médico Legal de BH, pra ajudá-los a identificar pessoas desaparecidas e desconhecidas. Eles precisavam do trem de última hora, e não podiam pagar – nos próximos, poderão (tomara, risos!). O pessoal gostou bastante dos desenhos, e isso me deu muita satisfação. Aprendi muita coisa “da vida” com a Vanessa (quem me instruiu), vendo as ossadas, um cadáver, ouvindo as histórias sobre morte e sofrimento. Até então, eu só havia brincado com crianças da creche (quando participava de uma ONG do Rotary, o Interact) e ensinado pintura para as vovós de um asilo, a Casa das Vovós (esse foi por minha conta, por passar em frente ao asilo todo dia, indo pra aula). Bem, ganhar dinheiro é bom (quem não gosta? ehehe), mas há outras remunerações com mais valor… ;)

Trabalho remunerado – Pesquisa

Nova Lima / MG

Hoje teve reunião do trabalho (é a pesquisa científica que paga minhas contas, risos!) com a minha nova orientadora, uma historiadora! Vamos compreender a história de Nova Lima para embasar o desenvolvimento de produtos relacionados aos conceitos de comunidades criativas e valorização do território local.

Senai BH

Senai Belo Horizonte/MG, no bairro Horto

Um dos termos de busca mais procurados neste blog é o Senai de Belo Horizonte. Bom, galera, eu posso passar o seguinte contato da Ana, pessoa querida que trabalha no Senai Modatec:

Ana Lúcia Reis | depto Comercial | Centro de Desenvolvimento Tecnológico para Vestuário – Modatec – Belo Horizonte
SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
Sistema FIEMG – Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais
Tel: 31 3482 5576 – Fax: 3482 5612
analucia@fiemg.com.br | www.fiemg.com.br

Se quiserem saber de cursos e notícias de lá, me mandem um e-mail, lucianjung@gmail.com, que eu encaminho todo o material que eles me enviam semanalmente.

Desfile de moda sustentável da Invoga (post jabá, risos!)

Invoga, empresa incubada na Escola de Design UEMG

A sustentabilidade, assim como na cadeia produtiva da música,  é pauta recorrente no mundo da moda em todos os aspectos – ecológico, econômico e cultural. É por esse fio condutor que o Festival Transborda promove também, no dia 19 de setembro às 18h40 na Praça da Estação, o Desfile de Moda Sustentável. Para saber mais, acesse o blog inVoga.

Tributação ecológica

Deixei o mais importante por último. Hoje na aula de Teoria do Design, estávamos discutindo sobre sustentabilidade e tal, esse papo chato que eu gosto, risos!

Bem, vamos ao problema: produtos ecologicamente corretos são mais caros que os não-ecológicos, por uma série de razões econômicas (oferta e demanda) e ecológicas (disponibilidade e processamento de matéria-prima). Como poderíamos, então, tornar os produtos eco mais competitivos?

Uma solução seria tributar os “custos ecológicos” nos produtos. Se o governo cobra um “eco-imposto” do empresário, isto é, um tributo sobre o impacto ambiental (outputs) da produção (ex.: quanto menor os outputs da empresa, menor seria a tributação da mesma), certamente incentivará o desenvolvimento de produtos sustentáveis e, por conseguinte, estimulará um comportamento mais ético tanto do empresariado quanto do consumidor.

Oficina de Criação de Ecobags – Nova Lima/MG

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Ontem estive em Nova Lima/MG, na inauguração do Centro de Atividades Culturais Cabeceiras. Foi bem legal, estávamos entre amigos, comendo pipoca e algodão doce com a comunidade do morro.

Junto a artesã Malu Giacomelli, vou ensinar com quantos paus se faz uma canoa, digo, com quantos retalhos se faz uma ecobag! ;) Bem, estou ansiosa pra começar o trabalho, que é capacitar 20 artesãs da comunidade de Cabeceiras a fim de gerar renda com a produção artesanal de ecobags.

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Post scriptum: acabei de voltar da reunião do projeto e fui pra outra vaga, de pesquisa! Vou viajar bastante a Nova Lima e pesquisar a identidade de lá, paralela a dos ingleses, para nortear a ID das comunidades criativas! “Bão dimais tamém”! :)

Artesanato lagoassantense

O Programa Minas Raízes (inserção de ações de design no artesanato), em que eu coordenava a equipe de Lagoa Santa/MG, foi adiado para fevereiro de 2011. As últimas atividades, até então, são:

  1. Há duas semanas, estive em Lagoa Santa, com minha colega Larissa Grace, para compreender e fotografar a produção artesanal lagoassantense, que tem um foco em produtos feitos de tecido – ou seja, possível de ser trabalhado o conceito de moda ética.
  2. Nesta semana, irei a São João del-Rei/MG (com quase tudo pago pela UFSJ) apresentar um artigo que escrevi sobre a identidade da cidade e sua relação com o Programa e com os produtos artesanais - I Congresso Nacional de Artesanato da Rede ITCP’s – I CONNARI

 

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Para quem se interessar:

Minas Raízes: Artesanato, Cultura e Design Social – A Identidade de Lagoa Santa/MG

Resumo

            O “Programa Minas Raízes – Artesanato, Cultura e Design Social” consiste na capacitação em produção artesanal, atendendo a grande demanda por projetos sociais e de inclusão produtiva, de modo a valorizar a produção artesanal, a qual geralmente apresenta-se homogeneizada e descaracterizada da identidade de seu local de origem e que atualmente apresenta grande demanda pelo mercado. Por meio da inserção de ações de design, este Programa objetiva apoiar e favorecer a elaboração e produção de novos produtos artesanais. Também procura valorizar junto aos artesãos a identidade cultural, local e regional, reafirmando o compromisso social, bem como objetiva articular parcerias produtivas e contatos comerciais para ampliar a participação do artesanato na produção regional e promover o fortalecimento do setor. As ações de design são desenvolvidas mediante a metodologia da pesquisa-ação, e pautadas no conceito de identidade configurada e configurável. O Programa Minas Raízes entende que a identidade é dinâmica (econômica, sócio e culturalmente), isto é, a identidade de um território é mutável, aberta e pluralista. Porém, durante o processo de capacitação, a identidade cultural local é compreendida como algo fixo, necessária de seus signos serem decodificados em elementos (formas, cores, materiais, motivos, etc.) para agregar valores aos produtos artesanais. Em síntese, para o Programa, a identidade é configurável; mas, para a capacitação – talvez por fins didáticos, de tornar o processo mais facilmente assimilado pelos artesãos – a identidade é proposta como configurada, e necessita ser decodificada e apropriada pelos mesmos. Dentre as três comunidades favorecidas pelo Programa Minas Raízes, o município de Lagoa Santa foi tomado como estudo de caso para a compreensão do conceito de identidade e sua relação com a produção artesanal. O município apresenta grande riqueza cultural: é considerado berço brasileiro da paleontologia, arqueologia e espeleologia, com fósseis de 12.000 anos, inclusive as ossadas do ser humano mais antigo das Américas; apresenta ainda forte influência dinamarquesa e católica; abriga o Aeroporto Internacional Tancredo Neves/Confins e o Parque de Material Aeronáutico (PAMA-LS), mantenedor de 34% da frota da Força Aérea Brasileira; e conta com a Associação Lagoassantense de Artesãos. Os produtos artesanais comercializados por esta associação na Feira de Artesanato da cidade não refletem a riqueza cultural e identidade do local. Lagoa Santa, enquanto território dotado de fenômenos culturais particulares, pode ser compreendida como possuidora de identidades configuráveis – as quais seriam configuradas pelos artesãos. É uma oportunidade para o Programa inverter a lógica da compreensão da identidade local no processo de capacitação: ao invés de propor uma identidade fixa do território como fio condutor para o desenvolvimento de produtos com maior valor cultural e econômico agregado, propor uma identidade aberta e configurável no processo de capacitação – coerente com a diretriz do Programa que entende a identidade de um território como dinâmica e plural.